Publicado originalmente no site [brasil.elpais], em 30 de setembro de 2019
Geração Z: antes mentíamos aos pais para sair, agora mentem
aos amigos para ficar em casa
Saídas para bares, festas e encontros mudam de acordo com o
uso das tecnologias
Por Manuela Sanoja
Muitos de nós já tivemos aquele amigo ou amiga que, durante
a adolescência, mentia para os pais sobre onde estariam na sexta ou no sábado à
noite. Em vez de estar “na casa da Maria assistindo a um filme”, iam tentar
entrar em alguma boate para maiores de idade. As coisas parecem ter mudado: os
jovens pertencentes às novas gerações preferem inventar desculpas aos amigos
para passar as noites dos dias livres em casa. Aparentemente, trata-se de uma
questão geracional: em geral, os mais jovens saem menos em noitadas. Algo que
se reflete nos dados de atividades relacionadas à vida noturna.
De acordo com uma pesquisa realizada pela Berenberg Research
em 2018, as gerações mais jovens estão reduzindo os dados do consumo de álcool.
A tendência começou com os millennials, definidos pelo Pew Research Center como
“os primeiros a chegar à maioridade no novo milênio” (os nascidos entre 1981 e
1996). No entanto, são os membros da geração Z (nascidos a partir de 1997) que
fazem a diferença. Atualmente, apenas 30,2% dos jovens entre 17 e 18 anos (no
último ano do ensino médio) admitem consumir esse tipo de bebida, em comparação
com os 54% que o faziam em 1991, segundo dados do Pew Research Center.
Não é apenas o consumo de álcool. Existe uma diminuição das
atividades consideradas adultas entre os adolescentes da geração
postmillennial. Eles também preferem não dirigir e têm menos relações sexuais
do que as gerações anteriores quando tinham a sua idade, revela um estudo
realizado pela Universidade de San Diego e pelo Bryan Mawe College. Em geral,
os membros da geração Z preferem ficar em casa a sair, aponta a pesquisa. E
qual é a chave do seu entretenimento? As redes sociais.
Expressar emoções através de ‘emojis’
Essa maior tendência a “se refugiar em casa com a
tecnologia”, explica Mercedes Bermejo, psicóloga infanto-juvenil e de família e
membro do Colégio Oficial de Psicólogos de Madri (COPM), faz com que “os jovens
estejam deixando de desenvolver as competências emocionais para se relacionar
com os outros”. A especialista acrescenta que eles parecem ter perdido o
interesse em expressar suas emoções ou ver como estão os outros: “Agora, se
você está triste, você não comunica isso, simplesmente coloca um emoji com uma
carinha”.
Isso é notado nos consultórios dos especialistas: “De fato,
há cada vez mais casos de adolescentes com tendência ao isolamento”, diz a
psicóloga. “É o que se conhece como hikkomori, termo japonês que se refere aos
jovens que se desconectam da realidade. Deixam de sair com os amigos, de
praticar esportes e até de ir à escola”, continua a especialista, que indica
que na Espanha “existem cerca de 200 casos”.
O problema não está no fato de não consumirem álcool –um
hábito prejudicial à saúde– ou terem menos relações sexuais, mas nas
consequências que esse isolamento acarreta à sua saúde mental, esclarece
Bermejo. E os dados confirmam: doenças como a depressão estão crescendo entre
os mais jovens. De acordo com a Pesquisa Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde
de 2017, 13% dos adolescentes entre 12 e 17 anos admitem ter tido ao menos um
episódio depressivo naquele ano, em comparação com 8% em 2007.
Um problema que vai além das famílias
“É importante que todos tomemos consciência da gravidade”,
diz Bermejo, que acrescenta que se trata de um problema da comunidade como um
todo e não apenas das famílias. Embora sejam os pais aqueles que podem
detectá-lo: “Quando eles veem que os filhos passam mais tempo no virtual do que
no real, quando não desfrutam de relações normais, quando começam a ter
respostas hostis ou a negligenciar sua higiene”.
A solução passa por promover outros tipos de comportamento
desde a infância. “Se, por exemplo, desde pequenos jogam futebol ou hóquei, é
mais provável que na adolescência continuem mantendo relações com os outros
membros de seu time. Também devemos tomar medidas de sensibilização, como
palestras, conferências ou seminários, escolas de pais e atividades de lazer
entre os jovens. Caso contrário, o isolamento pode acabar em doenças futuras”,
conclui a especialista.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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