Carmen Maura em ‘Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos’.
Publicado originalmente no site do jornal El País Brasil, em
01 de junho de 2019
O último paradoxo da vida moderna: por que ficamos presos ao
celular, mas odiamos falar por telefone?
Não deixe uma ligação rápida arruinar uma longa e confusa
série de mensagens de WhatsApp
Por Silvia López
Para iniciar um texto, Hemingway dizia a si mesmo: “Escreva
a frase mais verdadeira que você conhece”. Neste caso, seria: a psicóloga
Cristina Pérez, do Siquia, respondeu por meio de mensagens de áudio às perguntas
que lhe enviamos por email. Essa curiosidade metajornalística não tem
importância, não altera a qualidade de suas respostas, só ilustra a variedade e
fluidez de opções com as quais podemos nos comunicar hoje. Recebemos um email?
Respondemos com um áudio. Chegou um áudio de WhatsApp? Respondemos com um
texto. Recebemos um telefonema? Não respondemos. Esperamos. Esperamos. E
escrevemos: “Você me ligou? Não posso falar, é melhor me escrever”. O paradoxo
do grande vício do século XXI é que estamos presos ao celular, mas temos fobia
das ligações telefônicas.
Voto de silêncio
É uma tendência mais presente entre os mais jovens, mas
comum em todas as faixas etárias: só na Espanha, o uso diário de aplicativos de
mensagens instantâneas como WhatsApp, Telegram e Facebook Messenger é quase o
dobro do de ligações por telefone fixo e celular, segundo o Relatório da
Sociedade Digital na Espanha de 2018, da Fundação Telefónica. Não só preferimos
as mensagens instantâneas aos telefonemas, como também preferimos essas mensagens
a interagir com outras pessoas. Ou pelo menos foi o que 95,1% da população
espanhola disse preferir (o cara-a-cara só tem 86,6% de popularidade). A
ligação telefônica − que, até não muito tempo atrás, esperávamos com alegria ou
tolerávamos com resignação, mas nunca evitávamos com uma rejeição universal −
se tornou uma presença intrusiva e incômoda, perturbadora e tirânica, mas por
quê? “Uma das razões é que quando recebemos uma ligação, ela interrompe algo
que estávamos fazendo, ou simplesmente não temos vontade de falar nesse
momento”, explica a psicóloga Cristina Pérez. “Por outro lado, também exige de
nós uma resposta imediata, ao contrário do que ocorre na comunicação escrita,
que nos permite pensar bem no que queremos dizer. E a terceira razão seria o
fato de não poder saber de antemão qual será a duração do telefonema”,
acrescenta.
Introvertidos e entregues às telas
Perder tempo em um telefonema é uma perspectiva assustadora.
No entanto, segundo um relatório mundial da Deloitte, consultamos nossas telas
mais de 40 vezes ao dia, e uma de cada quatro pessoas faz isso entre 100 e mais
de 200 vezes.
Talvez a coisa mais valiosa que nosso interlocutor exija em
uma ligação não seja o tempo, e sim a concentração. Será que o ódio de falar
por telefone poderia ser sintoma de um problema mais profundo, como um
distúrbio de déficit de atenção? “Em princípio não”, responde a psicóloga. Mas
“sim, é possível que uma pessoa com déficit de atenção tenha dificuldade para
manter uma longa conversa telefônica e até mesmo que às vezes perca o fio da
meada e volte sua atenção para outra coisa, assim como lhe ocorreria em uma
conversa frente a frente, mas isso não quer dizer que desenvolva um ódio de
falar por telefone”.
Cristina Pérez alerta: “Sim, pode ser sinal de uma
personalidade introvertida. O imediatismo de um telefonema faz com que as
pessoas introvertidas não se sintam confortáveis neles. São pessoas que
dependem muito da observação e, por telefone, não podem examinar a expressão do
interlocutor. Se uma interação social já é incômoda para elas, é muito pior
quando não têm essa ajuda visual que utilizam tanto. De fato, esse tipo de
personalidade prefere a comunicação escrita à falada”.
Como cortar a ligação
Infelizmente, para esses introvertidos, não há uma fórmula
que os libere de todos os telefonemas, embora o identificador do número que
está ligando lhes dê certa autoridade. “Quando você recebe uma ligação, é você
que decide se é o momento de atendê-la ou de deixá-la para mais tarde”,
assinala a psicóloga. “Se você decidir atendê-la e precisar cortá-la, a melhor
maneira de fazer isso é de forma assertiva (estabelecendo limites, embora
inicialmente isso nos custe um pouco, já que podemos pensar que a outra pessoa
ficará chateada, mas é questão de treinamento e paciência), só que você também
deve detectar qual é o momento certo para cortar.”
O problema não é apenas que nosso interlocutor queira falar
ad infinitum. Ele muitas vezes quer de nós uma resposta rápida, se for, por
exemplo, um telefonema de trabalho. O terror de não ter tempo para pensar o que
devemos responder também nos impede de atender o telefone. A psicóloga também
tem um truque para esses casos: “Se pedem uma resposta imediata que nesse
momento você não pode dar, uma frase muito útil é ‘vou pensar com calma e
amanhã conversamos’, já que se não temos certeza quanto a uma resposta, o
melhor é adiá-la, porque o imediatismo nos faz agir impulsivamente e é possível
que depois nos arrependamos da resposta dada”.
Adeus à dialética?
A aversão à conversa da chamada “geração muda” poderia ter
mais consequências do que apenas evitar as reuniões sociais. “O preço a pagar
por nascer nesta geração é, muitas vezes, a falta de habilidade na hora de
iniciar ou manter uma conversa, embora essas pessoas possam passar horas e
horas no celular, porque estão mais concentradas naquilo que seu dispositivo
pode lhes oferecer (o que às vezes será uma conversa com outra pessoa, mas não
frente a frente). São gerações nas quais o vício por novas tecnologias está na
ordem do dia, e o problema não é apenas que não valorizem o quanto uma boa
conversa pode ser enriquecedora. Os efeitos do uso excessivo do celular afetam
também sua personalidade, já que são pessoas com baixa tolerância à frustração
e com necessidade de um reforço social contínuo, que ocorre através das
curtidas. Em suma, a tecnologia é boa desde que seja usada de forma compatível
com a vida cotidiana da pessoa, ou seja, quando não interferir em sua vida
social, trabalhista ou pessoal”, destaca a psicóloga.
Para que serve o WhatsApp
Com mais de 1,5 bilhão de usuários no mundo, não tem sentido
demonizar o uso do WhatsApp. Na verdade, psicologicamente ele tem muitas
vantagens. “A comunicação por escrito nos permite escolher o momento, redigir
bem nossa resposta e até relê-la; verificar se está claro o que queríamos dizer
e inclusive dizer coisas que não nos atreveríamos em uma conversa telefônica”,
explica Cristina Pérez.
Por serem canais de comunicação diferentes, ativam regiões
cerebrais distintas: “Quando temos uma conversa ou mandamos um áudio, é ativado
o lobo frontal, pois está vinculado à fala. Também aumenta a atividade dos
lobos temporais, encarregados de processar a informação auditiva”, prossegue a
psicóloga. Por outro lado, “se decidimos mandar uma mensagem de texto, assim
como em uma conversa ou uma mensagem de áudio, é ativado o lobo frontal, mas
para interpretar as palavras e a linguagem que usamos tanto para escrevê-la
como para lê-la, entra em ação o lóbulo parietal. A informação visual que chega
até nós é recebida e processada pelo lobo parietal, e este nos ajuda a ler e a
escrever, já que assim reconhecemos as palavras”.
Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

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