Publicado originalmente no site Pensador Anônimo, em 3 de abril de 2019
"Não é só a educação dos filhos que é necessária, mas a dos
pais também”, afirma Cortella
Por Pensador Anônimo
No trecho abaixo, recortado de uma entrevista concedida, em
2016, à Revista Crescer, Cortella nos fala sobre a perda de referência de
diversas famílias, no tocante à crianção de filhos. Confira!
“A novidade não é a mudança no mundo, é a velocidade da mudança.”
Foi assim que o filósofo Mário Sérgio Cortella, professor há 42 anos, pai e
avô, abriu a palestra Novos Tempos, Novos Paradigmas, que aconteceu em São
Paulo, no fim de setembro. Diante de uma plateia hipnotizada pelo vozeirão com
sotaque sulista e pela naturalidade em tratar temas complexos sem firulas, ele
deixou claro que o grande desafio da atualidade é acompanhar as transformações
para não ficar para trás.
Sim, estamos vivendo um tempo de reviravoltas sem
precedentes: na tecnologia, no trabalho, nas relações. Nesse contexto, mudar
não é apenas imprescindível, mas inevitável. Principalmente quando se fala em
educação. Em entrevista exclusiva à CRESCER, Cortella separa o que é velho do
que é antigo, defende que pais podem ser, sim, amigos dos filhos sem perder a
autoridade e critica o peso colocado na escola para assumir um papel que é da
família.
Como essa mudança tão veloz de paradigmas tem afetado a
forma como os pais criam os filhos?
Uma parte das famílias acabou perdendo um pouco a referência
dada à velocidade das mudanças e à rarefação do tempo de convivência com as
crianças. Isso fez com que muitas acabassem terceirizando o contato com os
filhos e delegando à escola aquilo que é originalmente de sua responsabilidade.
Só que isso perturba a formação das novas gerações. É claro que criar pessoas
dá trabalho e exige esforço. Acontece que, no meio de todas essas mudanças,
alguns pais e mães ficam desorientados. Por isso, é necessário que eles
encontrem apoio, em livros, revistas, grupos de discussão. Não é só a educação
dos filhos que é necessária, mas a dos pais também.
Ao mesmo tempo que muitas famílias terceirizam os cuidados,
há um movimento de mães e pais largando a carreira para se dedicar
exclusivamente aos filhos, não?
Claro. Uma das coisas mais importantes na vida é entender
que a palavra prioridade não tem “s”. Não tem plural. Se você disser: “tenho
duas prioridades” é porque não tem nenhuma. Então, deve estabelecer qual é a
sua prioridade. Sua prioridade é o convívio familiar? Então dê força a isso. É
a sustentação econômica? Vá fundo. Só que, ao escolher, não sofra. É evidente
que ninguém precisa abandonar a carreira em função da família, mas é necessário
buscar o equilíbrio – da mesma forma como se faz para andar de bicicleta: só há
equilíbrio em movimento.
Se você parar, desaba. Tenha em mente que haverá momentos em
que a família é o foco. Em outros, a carreira. Mas lembre-se de que a vida é
mais como maratona do que como uma corrida de 100 metros rasos: você não sai
disparado feito um louco. Tem horas que vai mais rápido, outras em que
desacelera. O segredo é ir dosando.
Você diz que, em um mundo de mudanças, nem tudo o que é
antigo é velho. Como saber o que está ultrapassado na criação dos filhos?
No convívio familiar, uma coisa que é antiga, mas não é
velha, é o respeito recíproco. Outra é a capacidade de o adulto saber que a
criança é “subordinada” a ele, ou seja, que está sob as suas ordens. O pai não
pode se tornar refém de alguém que ele orienta e cria. Agora, uma coisa que é
velha e que deve ser descartada é o autoritarismo, a agressão física, o modo de
ação que acaba produzindo algum tipo de crueldade. Isso é velho e é necessário,
sim, mudar. Na relação de convivência em família é preciso modificar aquilo que
é arcaico. O que não dá para perder é a honestidade, a afetividade e a
gratidão. Tudo isso vem do passado e tem que continuar.E como os pais podem
construir essa autoridade sem autoritarismo?
O pai e a mãe têm que saber que ele ou ela é a autoridade.
Ao abrir mão disso, há um custo. Quem se subordina a crianças e jovens, e têm
sobre eles alguma responsabilidade, está sendo leviano.
Mas você acha que dá para ser amigo dos filhos?
Claro. O que não pode é ser íntimo no sentido de perder a
sua autoridade. Eu tenho amizade com os meus alunos, mas isso não retira a
autoridade nem a responsabilidade que eu tenho sobre eles como professor. Há
uma frase que precisa ser deixada de lado que diz que “o amor aceita tudo”.
Isso é uma tolice. O amor inteligente, o amor responsável é capaz de negar o
que deve ser negado. A frase certa é: “Porque eu te amo é que eu não aceito
isso de você”. O amor que tudo aceita é leviano, irresponsável.
Atualmente, se joga muita responsabilidade na escola. Qual é
o limite entre os deveres dos pais e dos professores na educação das crianças?
É uma coisa estranha: a escola fica quatro ou cinco horas
com as crianças, em um dia que tem 24 horas, com 30 alunos juntos. É um
estabelecimento que deve ensinar a educação para o trabalho, educação para o
trânsito, educação sexual, educação física, artística, religiosa, ecológica e
ainda português, matemática, história, geografia e língua estrangeira moderna.
Supor que uma instituição com essa carga de atividade seja
capaz de dar conta daquilo que uma mãe ou um pai é que tem que ensinar a um
filho ou dois é não entender direito o que está acontecendo. A função da escola
é a escolarização: é o ensino, a formação social, a construção de cidadania, a
experiência científica e a responsabilidade social. Mas quem faz a educação é a
família. A escolarização é apenas uma parte do educar, não é tudo. Já tem
personal trainer, personal stylist, agora querem personal father, personal mother.
Não dá, é inaceitável.
Por outro lado, os pais interferem demais na escola?
Há uma diferença entre interferir e participar. A escola tem
que ser aberta à participação. Quando há uma interferência é sinal de que está
mal organizado. O que acontece nas escolas particulares, que são minoria e
representam apenas 13% do total, é que muita gente não lida mais com a relação
família versus escola como parceria. É mais como se fosse um relacionamento
regido pelo Código do Consumidor, como um cliente, como se o ensino fosse o
mesmo que a aquisição de um carro. Essa relação é estranha e precisa ser
rompida.
Mario Sergio Cortella, nascido em Londrina/PR em 05/03/1954,
filósofo e escritor, com Mestrado e Doutorado em Educação, professor-titular da
PUC-SP, na qual atuou por 35 anos.
É professor-convidado da Fundação Dom Cabral (desde 1997) e
o ensinou no GVpec da FGV-SP (1998/2010). Foi Secretário Municipal de Educação
de São Paulo (1991-1992), tendo antes sido Assessor Especial e Chefe de
Gabinete do Prof. Paulo Freire.
É autor de diversos livros nas áreas de educação, filosofia,
teologia e motivação e carreira.
Via Revista Crescer.
Texto e imagem reproduzidos do site: pensadoranonimo.com.br

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