Publicado originalmente no site G1, em 26/08/2018
Redes sociais ainda são vistas com ingenuidade, avalia
sociólogo Dominique Wolton; leia entrevista
De passagem no DF, especialista francês minimiza influência
da web sobre jogo político. Segundo ele, vício por internet representa falta de
amor.
Por Gabriel Luiz, G1 DF
As redes sociais, consideradas o “quinto poder” por alguns
estudiosos, têm um notório crítico declarado. Um dos grandes nomes atuais de
especialistas em ciências da comunicação, o sociólogo francês Dominique Wolton
relativiza a força e a influência que a internet dispõe no jogo político.
Ao lado do ministro Luiz Fux, presidente do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), o pesquisador de 71 anos esteve em Brasília para
falar sobre o perigo de compartilhar informações falsas durante um congresso da
Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).
Em entrevista ao G1 durante o simpósio,
"ingenuidade" foi o termo que Wolton mais usou para definir o que ele
chama de "paixão cega pelas redes".
Na conversa, ele abordou pontos como:
> o conformismo na internet;
> a influência política das redes;
> a proteção de dados pessoais;
> o papel da imprensa;
> e conflitos de gerações.
Veja a entrevista completa:
G1: O senhor diz que as redes sociais não têm tanta
capacidade de agregar quanto a gente imagina. Por quê?
Wolton: Existe uma diferença entre comunidade e sociedade.
Comunidade reúne todos aqueles que têm pontos em comum. Uma sociedade reúne os
que têm pontos em comum, mas também todos aqueles que não têm. As redes sociais
fazem comunidades: pessoas que querem ouvir apenas aquilo que gostam. São as
solitudes interativas. Porém, o futuro da humanidade é uma sociedade. Não é uma
comunidade.
Uma sociedade é feita pela comunicação humana, não pela
comunicação técnica – que, reconheço, é mais eficiente. A comunicação humana
nunca funciona, a gente perde muito tempo nela. Mas é ela que dá sentido à
vida. Uma técnica nunca fez política ou jornalismo.
A principal ameaça para a comunicação humana, na verdade,
está entre você e eu. Porque ela é, na origem, contraditória aos nossos
valores. Ainda assim, figuras como o jornalista ou o político têm que dizer
também aquilo que não se quer ouvir.
Existe hoje mais conformismo na internet do que existia há
50 anos no mundo. Uma opinião minoritária tem mais dificuldade de ser
entendida.
“Quando se diz que a internet é um espaço de liberdade, não
é verdade. É um espaço de conformismo.”
G1: No entanto, se atribui às redes sociais resultados como
o Brexit, a vitória do presidente Barack Obama ou mesmo a Primavera Árabe. O
senhor discorda?
Wolton: É ridículo e ingênuo achar que as redes têm todo
esse poder. Não acho que têm tanta importância assim nas escolhas políticas. A
gente acha lindo agora, mas vamos rir daqui a 30 anos da importância que demos
ao assunto.
Por exemplo, quanto ao Brexit [a decisão de o Reino Unido
sair da União Europeia], é inverificável que ele foi motivado pelas redes
sociais. O que vejo foi que o outro lado, dos que eram pela permanência, não
souberam fazer campanha direito antes que fosse tarde demais.
Não digo que as redes sociais não tiveram um papel, mas não
é isso tudo o que creditam. Durante a Primavera Árabe, na época, nem havia
tantas redes assim, era mais o telefone celular. Mas a questão principal era:
“Por que isso explodiu agora, e não antes?”.
Até então, a gente sempre dizia que os árabes nunca teriam
condição de fazer uma revolução democrática. Daí isso aconteceu, sem a gente
saber como, e a gente veio com uma explicação miraculosa, que se encaixa
tipicamente na ideologia ocidental: “Ah, por causa das redes”.
É uma preguiça intelectual dizer isso. Tem uma influência,
assim como um monte de outras coisas – sendo que todos aqueles que querem ser
modernistas dizem que é apenas graças às redes. Porém não existe link entre
democracia e liberdade tecnológica.
G1: Temos visto escândalos relacionados à forma como as
empresas de tecnologia tratam e usam os dados dos clientes. Ainda assim, os
números de usuários só tende a crescer. Há alguma explicação?
Wolton: Existe uma espécie de folia de confiança. As pessoas
gostam de entregar seus dados. As pessoas aceitam isso ingenuamente. Agora que
se sabe um pouco melhor como funcionam os algoritmos por trás das páginas, as
pessoas são fascinadas pela técnica por trás delas, como se tivessem achado
algum segredo. É até um pouco perverso. Mas acredito que, daqui a uns dois ou
três anos, isso pode mudar.
Por ora, a gente ainda está numa fase de expansão das redes
sociais. As pessoas gostam de contar as vidas. É revelador. Todo mundo se expressa,
e ninguém se entende. Na minha opinião, não é narcisismo: é falta de amor.
G1: As pessoas têm buscado mais as redes sociais para se
informar, em vez de recorrer à imprensa profissional. Com isso, acabam
acreditando em informações falsas e as disseminando. O que explica a
desconfiança com a imprensa? É um fenômeno mundial?
Wolton: Sempre existiu um ímpeto populista contra o
jornalismo. Por outro lado, a imprensa também errou. Jornalistas de base são
até simpáticos, mas a elite jornalística tende a ser arrogante e gosta de
dormir com o poder. É importante que a imprensa volte a informar, criticar.
O jornalista virou cada vez mais um seguidor de notinhas do
que um investigador. A prova: nunca se teve tanta técnica, mas tão pouca
diversidade nos jornais mundo afora. Todos dizem a mesma coisa.
Porém fica a dúvida: como uma pessoa consegue achar que
aquilo que ela lê no jornal, ouve na rádio ou vê na televisão é falso, mas,
quando alguém diz qualquer besteira em uma rede social, acha que é verdade? Por
que o que está em uma tela é verdade? É de uma ingenuidade torturante. O homem
não é melhor porque está nas redes sociais, diferentemente da ideologia que se
tem hoje.
Meu trabalho como pesquisador é confrontar essa crença. Não
temos direito de dizer isso. É uma indústria como as outras, com qualidades
inegáveis e também defeitos. Mas, por favor, não deem essa importância toda
quanto à revolução da informação.
G1: Qual é o caminho então?
Wolton: Se os jornais fazem a mesma coisa que a internet, as
pessoas não vão sentir a diferença. Eu preferia que melhorassem o conteúdo,
falassem mais de diversidade, em vez de fazer as mesmas coisas.
Falo bastante de imprensa escrita, mas vale também para os
portais de notícia, que a gente já supõe terem responsabilidade jornalística. A
verificação de informações [o chamado “fact checking”] também é um caminho para
recuperar a credibilidade.
G1: O senhor usa rede social?
Wolton: Só LinkedIn [plataforma de cunho profissional, onde
todos podem ver o currículo do outro]. Também tenho Facebook, mas é
administrado pela minha secretária. Não tenho tempo. Já meus filhos, usam sim.
Até brigo com eles para não passarem a vida só nisso.
“A nova geração chama a gente de velho, de radical,
desestabilizado. Não estou nem aí.”
E digo ainda: é importante que os mais velhos não joguem a
demagogia do “juvenismo”. Não digo que a rede social é inútil. Um adulto de 40
anos pode, sim, paquerar nas redes sociais. Sou a favor disso. Mas o problema é
que o mais interessante não é a paquera na rede, e sim quando as pessoas se
veem pela primeira vez, quando sai do imaginário. E aí, por acaso, muitas vezes
não funciona.
G1: Se o senhor pudesse deixar um conselho, qual seria?
Wolton: É lembrar que a comunicação técnica funciona muito
bem e é bem bonita. Computador, redes, essas coisas. Já a comunicação humana
não funciona nunca, mas o importante é manter esse tipo de comunicação.
A técnica é apenas um complemento, porém a questão central é
continuar tendo relações no dia a dia – afetivas, profissionais, que seja. Não
se enganem.
Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com/df

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