Khan em foto de 2010, no espaço em que
cria seus vídeos interativos. “Se apenas eu
falo e você apenas escuta, não é educação”.
Foto: Robyn Twomey/Corbis Outline.
Salman Khan: "A sala de aula é um lugar para
discutir".
O criador da Khan Academy, site que reúne mais de 3.800
aulas em vídeo, prega que os jovens estudem sozinhos na internet para
aproveitar melhor o tempo na escola
Por Amanda Polato.
O americano Salman Khan é autor de aulas em vídeo que já
foram vistas mais de 200 milhões de vezes no YouTube. Matemático e engenheiro,
com diplomas da Universidade Harvard e do Massachusetts Institute of
Technology, nos Estados Unidos, ele propõe um modelo de ensino conhecido como
flipped classroom (a sala de aula invertida), em que as crianças assistem a
vídeos de curta duração em casa e, na escola, ficam livres para debater, tirar
dúvidas e resolver problemas. Filho de uma indiana e um bengalês, Khan, de 36
anos, deixou um bom emprego no mercado financeiro para criar a Khan Academy,
site que oferece conteúdo gratuito em diversas disciplinas, com foco em exatas.
O educador chega nesta quarta-feira (16) ao Brasil, onde sua estratégia tem
sido experimentada em dez escolas públicas pela Fundação Lemann de educação e
pelos institutos Natura e Península. Nesta tarde, ele se reunirá com a
presidente Dilma Rousseff.
ÉPOCA – Por que o senhor decidiu dedicar sua vida a mudar a
maneira como as pessoas aprendem e estudam?
Salman Khan – Não foi uma decisão. A educação sempre me
intrigou, desde o ensino médio e a faculdade. Tive a oportunidade de fazer algo
sobre isso quando uma prima, Nadia, de 12 anos, estava com problemas para
aprender matemática. Ela morava em Nova Orleans. Eu, em Boston. Então comecei a
ser seu tutor à distância. Funcionou para ela, e passei a trabalhar com seus
irmãos mais novos. Comecei a fazer vídeos com exercícios e um amigo recomendou
colocá-los no YouTube e compartilhar. Achei que era uma ideia ridícula, mas fiz
assim mesmo.
ÉPOCA – O senhor pensou que esses vídeos poderiam interessar
a outras pessoas?
Khan – Não, mas comecei a receber mensagens de pessoas que
contavam como os vídeos as ajudaram. Tinha prazer em fazer aquilo, e os vídeos
decolaram. Em 2009, estava com problemas para focar em meu trabalho (como
analista de fundos de investimento). Percebi a oportunidade de criar algo e
decidi que seria sem fins lucrativos. Naquele ano, pedi demissão na expectativa
de alguém que pudesse apoiar a iniciativa, e acabou dando certo.
ÉPOCA – Suas experiências como estudante influenciaram seu
desejo de criar a Khan Academy?
Khan – Sim, isso foi uma das principais razões. Costumava
ver amigos, muito inteligentes, com problemas em matemática. Eles estavam
aprendendo por meio da memorização de fórmulas, estudando para as provas e
esquecendo tudo no dia seguinte. Também percebi no ensino médio que quando
estudantes trabalham juntos, uns como tutores dos outros, são capazes de muito
mais do que o sistema espera deles. Essas duas ideias estavam na minha cabeça.
>> Como as disputas universitárias podem ajudar a
formar profissionais melhores
ÉPOCA – Em sua opinião, é possível aprender sozinho?
Khan – As maneiras de aprender são complementares. Se
estamos numa situação em que apenas eu falo e você apenas escuta, não acho que
seja uma forma de interação física válida. Na minha cabeça, o tempo ideal na
sala de aula é interagindo, discutindo, construindo coisas. Se estou aprendendo
algo pela primeira vez, a última coisa que quero é outro ser humano ali
esperando que eu entenda. É algo estressante. O que quero é passar algum tempo
com aquilo, repetir, reler, pesquisar e depois começar a formular perguntas.
Depois disso estou pronto para ficar frente a frente com outro ser humano de
forma produtiva.
ÉPOCA – O senhor acredita que essa maneira autônoma de
aprender é útil para qualquer tipo de pessoa?
Khan – Acredito que poderia ser útil para qualquer pessoa,
mas não necessariamente é a melhor para todas. A escola tradicional tampouco é
para todos. Inicialmente, fiz a Khan Academy para ser o que eu queria quando
criança. Não esperava que fosse ficar tão popular. Há estudantes de diversas
idades, com diferentes desempenhos, meninos e meninas. Há pais e até avós.
>> O pacto para que todas as crianças estejam
alfabetizadas até os 8 anos
ÉPOCA – Quando uma escola decide usar seus vídeos, qual
passa a ser o papel do professor?
Khan – O professor ganha mais valor. Nas salas de aula em
que estamos trabalhando, os professores recebem muitas informações sobre o que
os alunos fizeram em casa, o que eles entenderam ou não. E todo o tempo dos
professores em classe é gasto no ensino. Podem dar atenção específica a alguns
estudantes, colocar outros para atuar como tutores. Há mais atenção, interação
entre os alunos e construção de relação positiva entre eles.
ÉPOCA – As dificuldades para aprender matemática são
universais?
Khan – Com certeza. Falo com amigos de várias partes do
mundo, e eles relatam a mesma coisa. Acredito que isso ocorra em razão da
maneira como a matemática é ensinada. Atualmente, nas escolas, o professor dá
algumas aulas sobre equações lineares e depois faz uma prova. Talvez eu tire um
C, você um B. O professor dirá que seu B é uma boa nota, mas você não entendeu
tudo. Há buracos em seu aprendizado.
>> Testes em crianças identificam problemas de
linguagem que podem prejudicar a alfabetização
ÉPOCA – É possível fazer com que 100% dos estudantes
entendam tudo?
Khan – No modo tradicional, é impossível. Com 30 estudantes
em classe, como fazer isso? No mundo em que estamos entrando, as pessoas podem
adquirir a informação em seu próprio ritmo e gosto. Se a classe é interativa, o
professor pode coordenar a sala de forma que os estudantes trabalhem com
problemas. Alguns podem avançar rapidamente, outros podem ficar lá atrás. Isso
não é uma coisa ruim. Significa que eles estão construindo uma base sólida.
ÉPOCA – Não seria melhor para os jovens se eles saíssem da
frente da internet e fossem fazer esportes ou estudar na companhia dos colegas?
Khan – Sim, esse é nosso objetivo. Imagino os alunos usando
nosso material on-line por uma hora, uma hora e meia por dia. O resto do dia
seria altamente interativo. As crianças poderiam correr por aí, jogar,
conversar, criar coisas novas. Acredito que essas ferramentas on-line não fazem
com que as crianças fiquem sentadas em frente aos computadores o dia todo, mas
as tornam mais interativas e eficientes.
>> Zoara Failla: “Se o professor não é leitor, não
consegue transmitir o prazer pela leitura”
ÉPOCA – Qual foi o papel de Bill Gates na divulgação de suas
ideias e de seu projeto?
Khan – Antes de Bill Gates aparecer, a Khan Academy estava
crescendo. Quando ele começou a dizer publicamente “Eu uso a Khan Academy com
meus filhos”, nos levou para outro nível. As pessoas diziam: “Gates é esperto,
pode pagar os melhores tutores do mundo para seus filhos, mas está usando essa
coisa grátis na internet”. Foi um importante depoimento. Ele tem nos apoiado
financeiramente, mas dizer que usa (os vídeos) com os filhos foi mais poderoso.
>> Leia outras entrevistas
ÉPOCA – No Brasil, temos desafios relacionados à falta de
computadores e de acesso à internet. Como seu projeto pretende contorná-los?
Khan – Esse problema não será resolvido do dia para a noite.
Ainda é uma questão nos Estados Unidos e ainda é no Brasil. O que me deixa
otimista é que isso mudará radicalmente nos próximos anos. A venda de
celulares, tablets e computadores está crescendo de forma mais rápida que a
venda de geladeiras há 50 anos. Acredito que será possível para qualquer pessoa
no Brasil, nos próximos cinco anos, ter acesso a esses equipamentos. Na Índia,
as pessoas estão usando aparelhos que custam menos de US$ 100. Em cinco anos,
custarão US$ 20.
ÉPOCA – O senhor pensa em transformar a Khan Academy em
negócio?
Khan – É uma organização sem fins lucrativos. Não sou dono
dela, sou um empregado. Estamos comprometidos em oferecer os materiais
gratuitamente. Imagino que no futuro talvez façamos algum tipo de
credenciamento, não sei. De qualquer forma, tudo o que fazemos está relacionado
com a missão de produzir conteúdo de graça.
"Quando Bill Gates disse que usava os vídeos grátis da
Khan Academy para ensinar seus filhos, ele nos levou para outro nível. foi um
apoio poderoso"
ÉPOCA – O senhor realizou seu sonho com a Khan Academy?
Khan – Eu me considero a pessoa mais sortuda do planeta.
Faço o que acho intelectualmente e emocionalmente satisfatório. A única
preocupação que tenho agora é que a gente não cometa nenhum erro, porque temos
a oportunidade de fazer a diferença. u Não foi uma decisão. A educação sempre
me intrigou, desde o ensino médio e a faculdade. Tive a oportunidade de fazer
algo sobre isso quando uma prima, Nadia, de 12 anos, estava com problemas para
aprender matemática. Ela morava em Nova Orleans. Eu, em Boston. Então comecei a
ser seu tutor à distância. Funcionou para ela, e passei a trabalhar com seus
irmãos mais novos. Comecei a fazer vídeos com exercícios e um amigo recomendou
colocá-los no YouTube e compartilhar. Achei que era uma ideia ridícula, mas fiz
assim mesmo.
ÉPOCA – O senhor pensou que esses vídeos poderiam interessar
a outras pessoas?
Khan – Não, mas comecei a receber mensagens de pessoas que
contavam como os vídeos as ajudaram. Tinha prazer em fazer aquilo, e os vídeos
decolaram. Em 2009, estava com problemas para focar em meu trabalho (como
analista de fundos de investimento). Percebi a oportunidade de criar algo e
decidi que seria sem fins lucrativos. Naquele ano, pedi demissão na expectativa
de alguém que pudesse apoiar a iniciativa, e acabou dando certo.
ÉPOCA – Suas experiências como estudante influenciaram seu
desejo de criar a Khan Academy?
Khan – Sim, isso foi uma das principais razões. Costumava
ver amigos, muito inteligentes, com problemas em matemática. Eles estavam
aprendendo por meio da memorização de fórmulas, estudando para as provas e
esquecendo tudo no dia seguinte. Também percebi no ensino médio que quando
estudantes trabalham juntos, uns como tutores dos outros, são capazes de muito
mais do que o sistema espera deles. Essas duas ideias estavam na minha cabeça.
ÉPOCA – Em sua opinião, é possível aprender sozinho?
Khan – As maneiras de aprender são complementares. Se
estamos numa situação em que apenas eu falo e você apenas escuta, não acho que
seja uma forma de interação física válida. Na minha cabeça, o tempo ideal na
sala de aula é interagindo, discutindo, construindo coisas. Se estou aprendendo
algo pela primeira vez, a última coisa que quero é outro ser humano ali
esperando que eu entenda. É algo estressante. O que quero é passar algum tempo
com aquilo, repetir, reler, pesquisar e depois começar a formular perguntas.
Depois disso estou pronto para ficar frente a frente com outro ser humano de
forma produtiva.
ÉPOCA – O senhor acredita que essa maneira autônoma de
aprender é útil para qualquer tipo de pessoa?
Khan – Acredito que poderia ser útil para qualquer pessoa,
mas não necessariamente é a melhor para todas. A escola tradicional tampouco é
para todos. Inicialmente, fiz a Khan Academy para ser o que eu queria quando
criança. Não esperava que fosse ficar tão popular. Há estudantes de diversas
idades, com diferentes desempenhos, meninos e meninas. Há pais e até avós.
ÉPOCA – Quando uma escola decide usar seus vídeos, qual
passa a ser o papel do professor?
Khan – O professor ganha mais valor. Nas salas de aula em
que estamos trabalhando, os professores recebem muitas informações sobre o que
os alunos fizeram em casa, o que eles entenderam ou não. E todo o tempo dos
professores em classe é gasto no ensino. Podem dar atenção específica a alguns
estudantes, colocar outros para atuar como tutores. Há mais atenção, interação
entre os alunos e construção de relação positiva entre eles.
ÉPOCA – As dificuldades para aprender matemática são
universais?
Khan – Com certeza. Falo com amigos de várias partes do
mundo, e eles relatam a mesma coisa. Acredito que isso ocorra em razão da
maneira como a matemática é ensinada. Atualmente, nas escolas, o professor dá
algumas aulas sobre equações lineares e depois faz uma prova. Talvez eu tire um
C, você um B. O professor dirá que seu B é uma boa nota, mas você não entendeu
tudo. Há buracos em seu aprendizado.
ÉPOCA – É possível fazer com que 100% dos estudantes
entendam tudo?
Khan – No modo tradicional, é impossível. Com 30 estudantes
em classe, como fazer isso? No mundo em que estamos entrando, as pessoas podem
adquirir a informação em seu próprio ritmo e gosto. Se a classe é interativa, o
professor pode coordenar a sala de forma que os estudantes trabalhem com
problemas. Alguns podem avançar rapidamente, outros podem ficar lá atrás. Isso
não é uma coisa ruim. Significa que eles estão construindo uma base sólida.
ÉPOCA – Não seria melhor para os jovens se eles saíssem da
frente da internet e fossem fazer esportes ou estudar na companhia dos colegas?
Khan – Sim, esse é nosso objetivo. Imagino os alunos usando
nosso material on-line por uma hora, uma hora e meia por dia. O resto do dia
seria altamente interativo. As crianças poderiam correr por aí, jogar,
conversar, criar coisas novas. Acredito que essas ferramentas on-line não fazem
com que as crianças fiquem sentadas em frente aos computadores o dia todo, mas
as tornam mais interativas e eficientes.
ÉPOCA – Qual foi o papel de Bill Gates na divulgação de suas
ideias e de seu projeto?
Khan – Antes de Bill Gates aparecer, a Khan Academy estava
crescendo. Quando ele começou a dizer publicamente “Eu uso a Khan Academy com
meus filhos”, nos levou para outro nível. As pessoas diziam: “Gates é esperto,
pode pagar os melhores tutores do mundo para seus filhos, mas está usando essa
coisa grátis na internet”. Foi um importante depoimento. Ele tem nos apoiado
financeiramente, mas dizer que usa (os vídeos) com os filhos foi mais poderoso.
ÉPOCA – No Brasil, temos desafios relacionados à falta de
computadores e de acesso à internet. Como seu projeto pretende contorná-los?
Khan – Esse problema não será resolvido do dia para a noite.
Ainda é uma questão nos Estados Unidos e ainda é no Brasil. O que me deixa
otimista é que isso mudará radicalmente nos próximos anos. A venda de
celulares, tablets e computadores está crescendo de forma mais rápida que a
venda de geladeiras há 50 anos. Acredito que será possível para qualquer pessoa
no Brasil, nos próximos cinco anos, ter acesso a esses equipamentos. Na Índia,
as pessoas estão usando aparelhos que custam menos de US$ 100. Em cinco anos,
custarão US$ 20.
ÉPOCA – O senhor pensa em transformar a Khan Academy em
negócio?
Khan – É uma organização sem fins lucrativos. Não sou dono
dela, sou um empregado. Estamos comprometidos em oferecer os materiais
gratuitamente. Imagino que no futuro talvez façamos algum tipo de
credenciamento, não sei. De qualquer forma, tudo o que fazemos está relacionado
com a missão de produzir conteúdo de graça.
ÉPOCA – O senhor realizou seu sonho com a Khan Academy?
Khan – Eu me considero a pessoa mais sortuda do planeta.
Faço o que acho intelectualmente e emocionalmente satisfatório. A única
preocupação que tenho agora é que a gente não cometa nenhum erro, porque temos
a oportunidade de fazer a diferença.
Foto e texto reproduzidos do site: revistaepoca.globo.com

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