terça-feira, 24 de setembro de 2019

0 grandes filmes que foram proibidos ou censurados

Publicado originalmente no site [huffpostbrasil], em 18 de setembro de 2019

10 grandes filmes que foram proibidos ou censurados

A história do cinema está cheia de produções que foram perseguidas pelos mais diversos motivos.

By Rafael Argemon

A atual política de rever o repasse de recursos para filmes com temática LGBT por parte do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), além de casos como o adiamento do lançamento do longa Marighella e a proibição da exibição do documentário Chico: Artista Brasileiro (2015) em um festival no Uruguai, reascenderam uma questão que o cinema, e as artes em geral, sofrem desde sempre: a censura.

Pelos mais variados motivos, filmes são banidos ou censurados no mundo todo. Seja por razões políticas, morais ou religiosas, grandes títulos só foram exibidos em salas de cinema muitos anos depois de terminados, transformando-os em obras “malditas”.

Pensando nisso, selecionamos aqui 10 grandes filmes que foram proibidos ou censurados no mundo:

Saló ou os 120 Dias de Sodoma (1975)


O mais incompreendido dos filmes do cineasta e poeta italiano Pier Paolo Pasolini, Saló é uma adaptação livre de Os 120 Dias de Sodoma, do Marquês de Sade, transportado para a Itália fascista de Benito Mussolini. A produção seria a primeira parte da Trilogia da Morte, que se contraporia a Trilogia da Vida, formada por Decameron (1971), Os Contos de Canterbury (1972) e As Mil e Uma Noites (1974), mas Pasolini foi assassinado por um garoto de programa poucos meses depois de encerrar as filmagens de Saló. Crítica ácida aos horrores do fascismo, o filme, infelizmente, acabou ficando marcado mais pelo escândalo do que pelas questões que levanta. Foi proibido em diversos países com costumes mais conservadores, como Sri Lanka e Irã, mas também em locais ditos mais “liberais”, como a Austrália e a Finlândia, que liberou a exibição de Saló apenas em 2001.

A Última Tentação de Cristo (1988)


Católico convicto, Martin Scorsese ficou fascinado com o Jesus mais humano retratado no livro do grego Níkos Kazantzákis, e entendia que as pessoas poderiam compreender melhor a figura de um Cristo mais acessível ao público, que entendia as aflições e contradições dos seres humanos exatamente por ele mesmo ser um. Mas a mensagem compreendida por muitos cristãos pelo mundo afora foi totalmente contrária ao que Scorsese imaginava. Vários grupos religiosos rejeitaram o filme e as reações foram muitas vezes violentas. Em 22 de outubro de 1988, em um grupo fundamentalista cristão francês lançou coquetéis molotov dentro de uma sala de cinema que exibia o longa em Paris. Treze pessoas ficaram feridas. Quatro com queimaduras graves. O filme foi proibido em países como a Turquia, Argentina, México e Chile. Nas Filipinas e em Singapura, a produção só teve sua exibição liberada em 2010.

Laranja Mecânica (1971)


Adaptação do livro do escritor inglês Anthony Burgess, Laranja Mecânica foi banido no Reino Unido a pedido de seu próprio diretor, o americano Stanley Kubrick, que vivia há anos na Inglaterra. Incomodado com as críticas ruins que acusavam o filme de ser excessivamente violento e por conta de ameaças de morte que recebeu, Kubrick exigiu que o longa fosse liberado a passar nos cinemas britânicos apenas depois de sua morte, que aconteceu em 1999. O filme também foi proibido em países como Irlanda, Coreia, Singapura, África do Sul. Aqui no Brasil, ele chegou aos cinema apenas sete anos depois de seu lançamento, e com bolinhas pretas que cobriam os corpos em cenas de nudez.

O Grande Ditador (1940)


Logo que começou a produção de O Grande Ditador, em 1937, Charles Chaplin foi pressionado pelo governo inglês a desistir de fazer o filme. O motivo? O Reino Unido ainda tentava uma aproximação com o governo nazista. Claro que, quando foi lançado, em 1940, o grande libelo de Chaplin contra o autoritarismo foi usado pelo próprio governo inglês como propaganda anti-nazista. A Alemanha, claro, baniu o filme, mas, de acordo com o jornalista Otavio Cohen relata em seu livro A História Bizarra da 2ª Guerra Mundial, o próprio Hitler assistiu ao filme. E mais de uma vez! O curioso foi que além da Alemanha nazista, o longa foi proibido no Brasil de Getúlio Vargas, que por anos foi simpático aos nazistas e classificou o filme de ser “comunista”, e no período das ditaduras militares do Paraguai e Argentina.

O Massacre da Serra Elétrica (1974)


O que você pensa quando encara uma fila gigante em um caixa no supermercado? Tobe Hooper teve a ideia para O Massacre da Serra Elétrica quando estava em uma loja de ferragens lotada. “Por que não usar uma serra elétrica para abrir caminho na multidão”, imaginou o diretor. Mal sabia ele que nascia ali um dos grandes clássicos do terror que causaria a fúria de pais mundo afora, preocupados com a violência que seus filhos consumiam no cinema. O Massacre da Serra Elétrica foi proibido por anos em países como Brasil, Finlândia, Noruega, Suécia, Singapura e Austrália, sendo liberado por lá só na década de 1980. Mas nada se comparar ao que o longa sofreu na Alemanha, em que foi banido e teve todas as suas cópias confiscadas pelo governo em 1985.

Eu Vos Saúdo Maria (1985)


A visão moderna do francês Jean-Luc Godard sobre Maria causou furor por onde passou. Não muito pelo filme em si, que apenas transporta o “mito” para os tempos modernos em que Maria é apenas uma jovem que gosta de jogar basquete, mas principalmente depois que o Papa João Paulo II condenou o longa publicamente. Assim como na Argentina, o governo brasileiro, do então presidente José Sarney, proibiu sua exibição. Mas vários intelectuais e músicos organizaram sessões clandestinas e a pressão acabou fazendo com que a proibição fosse cancelada.

O Encouraçado Potemkin (1925)


Um dos maiores clássicos do cinema e apontado por muitos críticos como um dos maiores e mais importantes filmes da história, O Encouraçado Potemkin, do cineasta Sergei Eisenstein era revolucionário de diversas formas. Muito por conta do jeito em que foi filmado, com planos incomuns para a época e uma edição ágil que passou a ser copiada. Porém, o que chamou mais a atenção de muitos governos foi a parte “revolucionária” da mensagem. O filme foi considerado uma propaganda do comunismo e banido em boa parte do mundo fora da cortina de ferro, como Espanha, Reino Unido, França, Alemanha... A lista é bem grande. Mas essas barreiras foram logo suplantadas pelo incrível legado dessa que é uma das grandes obras primas da sétima arte.

A Vida de Brian (1979)


Nem o grupo cômico inglês Monty Python escapou da fúria dos cristãos quando resolveu fazer piada com a vida de Jesus. Bom, não era bem isso, já que A vida de Brian foca em Brian, um homem que acaba se metendo em altas confusões por ser confundido com o filho de Deus. Muitos radicais não acharam a mínima graça e o longa foi banido em países como África do Sul, Irlanda, Malásia e Noruega. aliás, na Suécia, o longa filme foi liberado e até exibido com o slogan: “O filme é tão engraçado que foi banido na Noruega”. Os noruegueses liberaram a exibição no ano seguinte, em 1980.

O Último Tango em Paris (1972)


O Último Tango em Paris é controverso desde a sua concepção. O filme nasceu como uma fantasia sexual de seu diretor, o italiano Bernardo Bertolucci, que uma vez sonhou que encontrava uma mulher na rua e fazia sexo com ela, sem nunca saber quem ela era e qual o seu nome. No Brasil, a ditadura militar liberou a exibição do longa apenas em 1979. Já no Chile de Pinochet a proibição durou 30 anos. No Reino Unido, assim como em uma série de países, o filme teve várias cenas cortadas. Mas o grande problema que Bertolucci teve foi em seu próprio país. Na Itália, seu filme foi exibido apenas em 1975 e o cineasta foi condenado a quatro meses de prisão por “obscenidade”. A condenação acabou sendo revertida. Em 2016, dois anos antes de sua morte, Bertolucci provocou ainda mais polêmica ao admitir que a atriz Maria Schneider não sabia previamente o que aconteceria na “famosa” cena em que Marlon Brando usa manteiga para fazer sexo anal com sua personagem.

A Tortura do Medo (1960)


Conhecido como o filme que acabou com a carreira do diretor britânico Michael Powell (Sapatinhos Vermelhos, Narciso Negro e Coronel Blimp - Vida e Morte), A Tortura do Medo foi banido na Finlândia por 21 anos! O longa foi pessimamente recebido pela crítica e pelo público britânico, que viu na história do psicótico Mark Lewis (Karlheinz Böhm), que usa sua câmera para matar e ao mesmo tempo filmar sua vítimas, um exercício sem sentido de violência e voyeurismo. Mas o tempo mostrou que o filme merecia bem mais reconhecimento. O British Film Institute o nomeou o longa como o 78º maior filme britânico de todos os tempos. Já em 2017, uma pesquisa com 150 atores, diretores, roteiristas, produtores e críticos classificou Tortura do Medo como o 27º melhor filme britânico da história.

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

“Estamos criando..., uma geração sem dados, sem conhecimento e sem..."

Andreu Navarra, professor e autor do livro 'Devaluación Continua'.
Foto Lorena Ruiz

Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 18/09/2019

“Estamos criando o ciberproletariado, uma geração sem dados, sem conhecimento e sem léxico”

Andreu Navarra, professor do ensino médio, denuncia a ausência de debate sobre o futuro a que esta sociedade quer conduzir seus jovens

Por Berna González Harbour

O mundo da educação debate as horas de aulas, a avaliação dos professores e os maus resultados da Espanha nos testes do PISA, mas tudo isso é bastante secundário no universo de Andreu Navarra, um professor de língua e literatura no ensino médio que retrata desde as vísceras do ensino, da própria sala de aula, uma realidade de emergências mais prementes: da desnutrição de uma boa parte dos estudantes à incapacidade de se concentrar da nova geração do “ciberproletariado” ou a ausência de debate sobre o futuro a que esta sociedade quer conduzir seus jovens. Navarra não é um teórico, mas uma torrente de verdades que acaba de publicar Devaluación Continua (desvalorização contínua) pela editora Tusquets, uma chicotada contra a cegueira, um chamado emergencial diante da degradação do modelo educacional.

“Nós, professores, queremos criar cidadãos autônomos e críticos, mas, em vez disso, estamos criando o ciberproletariado, uma geração sem dados, sem conhecimento, sem léxico. Estamos vendo o triunfo de uma religião tecnocrática que evolui para menos conteúdo e alunos mais idiotas. Estamos servindo a tecnologia e não a tecnologia a nós”, diz Navarra. "O professor está exausto, devorado por uma burocracia para gerar estatísticas que lhe tiram a energia mental para dar aulas."

O testemunho de Andreu Navarra (Barcelona, 1981), historiador, tem o valor de quem leciona há seis anos em escolas públicas e em subvencionadas, em áreas ricas e em degradadas, onde encontra por igual "professores heroicos" em um sistema educacional estressado pela própria sociedade da qual é espelho: há pais ausentes porque trabalham demais; há violência; há crianças sem comer ou tomar café da manhã; há muitos problemas mentais; e há uma geração ausente por causa de sua concentração nas redes sociais e sua identidade virtual.

“O audiovisual está criando uma nova Idade Média de pessoas dependentes de satisfazer o prazer aqui e agora, quando a vida é muito diferente. Na vida você precisa saber ler contratos, alugar apartamentos, cuidar dos idosos, criar filhos. Mas o ciberproletariado desmorona por qualquer problema. São pessoas que não serão capazes de trabalhar porque têm a concentração sequestrada pelas redes”, diz ele. Não que todos os jovens se encaixem em seu olhar crítico, mas ele vê o risco de exclusão de um quarto dos alunos em uma tempestade perfeita de precariedade e vida virtual.

Navarra descreve, por exemplo, uma turma de 20 alunos com dificuldades de aprendizado em que, depois de lhes perguntar, descobriu que nenhum havia tomado o café da manhã. “Estão pálidos e ficam inquietos. Há estudantes que não comem por causa de distúrbios alimentares, outros por negligência da família, outros por pura miséria.” No entanto, na ausência de professores de apoio e de especialistas, as patologias (teve classes em que 30% tinham algum diagnóstico) concentram a atenção dos professores nas reuniões de avaliação e os impedem de pensar nos conteúdos. O pedagogo se confunde com o terapeuta, diz ele. E no debate da inclusão se esquece, diz ele, que "o que realmente falta incluir é a instituição". Navarra conta como ele e seus colegas se alegram quando encontram um livro didático de segunda mão dos anos 90 e o compram "como se fosse ouro". “Nos livros de Lázaro Carreter há explicações, agora temos excertos, flipped classroom [um método participativo que ele considera inaplicável havendo excesso de alunos]. Explique Quevedo com uma flipped classroom! O que não pode haver é uma pedagogia indecente. Temos pessoas inteligentes, queremos uma sociedade inteligente, não a rebaixemos. Temos de distinguir o tempo da escola do tempo externo, e não reduzi-lo. Ser aluno é importante. Ser professor é importante. Vamos explicar quem é Quevedo! Tiramos a literatura do currículo e depois nos perguntamos por que a nação é fraca. É que a nação é isso! Temos que dar a eles a oportunidade de um debate crítico.”

Nem tudo é negativo, é claro. Seu livro tem tantos problemas detalhados como sinais de esperança em experiências possíveis, diz ele, quando a autonomia do professor é respeitada: oficinas de poesia, contos, recreio dedicado ao tempo de leitura, como em sua atual escola, em Collbató, onde os alunos leem e depois contam o que leram, com êxito. “A chave é a autonomia da instituição frente a um pensamento único, frente às teorias da panaceia. Quando Portugal concedeu 25% de autonomia às escolas, melhorou.”

O livro de Navarra recorre a Ortega y Gasset para apelar a um debate necessário antes de tudo o mais: para onde estamos indo. “Se você sabe para onde está indo, se abrirmos um debate sobre o modelo de futuro para o qual queremos avançar, você depois regulará a tecnologia, os horários ou o que for, mas antes de aumentar ou diminuir as horas é preciso pensar no que se quer fazer com elas”, argumenta. E o modelo de sociedade que transforma Pablo Escobar ou Jesús Gil em heróis carismáticos nas séries; o mau exemplo de alguns políticos malandros; a mentalidade Fraga do “turismo e populismo que continua em Salou, em Magaluf, em destroçar Barcelona” não ajuda. "Falta reflexão sobre a sociedade que queremos porque não apostamos em um MIT espanhol, em exportar literatura, engenharia patenteada aqui em vez de exportar engenheiros".

Mas "o papel da educação de promover a ascensão social está fracassando e estamos criando bolsões de guetos, de pessoas sem futuro". Menciona também a ação de “maquiar” a ignorância que as escolas praticam para melhorar as estatísticas. E insiste repetidamente na incapacidade de fixar a atenção, grande carência de uma nova geração com fotos nas redes, mas sem memória. “Conhecemos vários capitalismos e agora estamos no capitalismo da atenção, em uma economia de plataformas que mercantilizam a atenção. Se você estiver vendo algumas mensagens, alguém ganha dinheiro e, se vê outras, outro alguém ganha. Não podemos repensar a educação se não pensarmos em como devolver a atenção às salas de aula, o regresso do mundo virtual. Agora não podemos nos ensimesmar, como Ortega defendia, porque tudo é ruído, política é gritaria e slogans, ninguém pensa, ninguém escreve, tudo é bobagem e slogan e isso chegou às salas de aula: o simplista, o binário, o bem e o mal. Os Steve Jobs e Zuckerberg, lembre-se, receberam educação analógica. E os gurus da tecnologia mandam seus filhos para escolas analógicas. É por isso que, ele conclui, "enquanto não consertarmos a sociedade, não podemos consertar o sistema educacional".

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

sábado, 21 de setembro de 2019

A revolucionária história do site que mudou a forma como vemos sexo

Graças ao Pornhub, o cinema para adultos deixou de ser um gênero que vivia nas 
sombras para se tornar um fenômeno que atrai cantores famosos, 
marcas reconhecidas e causas ecológicas.
Imagem: Getty (Montaje: Blanca López)

Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 15 de setembro de 2019 

Pornhub: a revolucionária história do site que mudou a forma como vemos sexo

Começou como uma plataforma de vídeos piratas e hoje atrai superestrelas, anuncia marcas de moda italiana e promove campanhas para limpar os oceanos

Por Guillermo Alonso 

O Pornhub já foi chamado de “os Estudos de Kinsey da nossa geração”. A plataforma contém tantos milhões de vídeos (você precisaria de várias vidas para ver todos), tantas variedades, localizações, piruetas, morfologias, etnias, gêneros, orientações e fetiches que está pronto não apenas para satisfazer as perversões mais estranhas de uma pessoa, mas também para ajudar a descobrir algumas novas. Uma experiência reveladora é buscar informação sobre o Pornhub no Google. Seu posicionamento tem tanta primazia, e sua oferta é tão variada, que os termos em inglês sempre “dançarão” de um modo que esses resultados tragam vídeos pornográficos exatamente sobre o que você está buscando. Por exemplo: se procuramos informação sobre os escritórios ou os funcionários do Pornhub, o Google vai nos sugerir o vídeo “Minha assistente quer um aumento” ou “Secretária libertina seduz o chefe”. E se buscamos “história do Pornhub”, não aparecerá nenhum artigo que nos ajude a conhecer a trajetória da plataforma, e sim vídeos pornô como “As eróticas aventuras de Marco Polo” ou “Boquete no museu criacionista”.

Nesse sentido, poderíamos afirmar que o Pornhub ultrapassou o Google pela direita na busca de conteúdo, embora o Google seja o site mais visitado do mundo e o Pornhub esteja em 38.o lugar: o que quer que você busque, tem sempre alguma coisa no Pornhub que fala sobre isso.

Para conhecer as origens da plataforma de vídeos sexuais mais popular do mundo, porém, é preciso conhecer primeiro da plataforma de vídeos mais popular do mundo. Se o YouTube nasceu em 2005 (e é hoje um fenômeno que mudou para sempre a indústria do entretenimento e o segundo site mais visitado, após o Google) foi para saciar também um instinto selvagem. Um jovem chamado Jawed Karim buscava desesperadamente na Internet o vídeo em que se pode ver parcialmente o seio de Janet Jackson durante o intervalo do Super Bowl de 2004. Não o encontrou em nenhuma parte. E pensou: “Por que não existe nenhum site onde as pessoas possam publicar vídeos e os outros possam vê-los?” O resto é história – e está todinha em nossos celulares.

O dono do Pornhub ficou tão rico que “instalou um aquário dentro de casa, “tão grande que um mergulhador tinha que ir toda semana para limpar o fundo”, como contou uma pessoa que esteve lá

O Pornhub nasceria dois anos depois, fundado pelo desenvolvedor Matt Keezer e como parte de uma empresa maior chamada InterHub. O domínio “Pornhub” custou apenas 2.500 euros (11.250 reais). Sua história mudou com a chegada de Fabian Thylmann (Aachen, Alemanha, 1978) em 2010. Até então, o Pornhub era uma plataforma que oferecia, basicamente, material pirata: os próprios usuários postavam cenas pornográficas que tinham em seus drives, geralmente ilegais porque possuíam copyright. Thylmann deu um foco à operação com a qualidade que você nunca esperaria no pornô: a frieza.

Com mentalidade de empresário, ele comprou o Pornhub e outras plataformas concorrentes (como o YouPorn e o RedTube). Numa indústria em que os chefes sempre haviam sido homens interessados no sexo e que se deixavam levar pelos instintos mais básicos, Thylmann triunfou porque o pornô na verdade lhe interessava muito pouco: ele sabia de números, empréstimos, publicidade e tecnologia. O homem que deu de presente para o mundo a possibilidade de ver qualquer tipo de vídeo erótico, a qualquer hora, em qualquer lugar e em troca de nada não estava pensando em sacanagem, e sim em dinheiro.

Thylmann ficou tão rico que, como contou um conhecido num programa de rádio, “instalou um aquário dentro de casa, tão grande que um mergulhador tinha que ir lá toda semana para limpar o fundo. Você sabe que triunfou na vida quando precisa do seu próprio mergulhador.” Thylmann vendeu a empresa em 2013 por 66 milhões de euros (297 milhões de reais) enquanto era investigado por evasão fiscal. Agora já não faz parte dela. Em 2015, pagou uma multa de 4,5 milhões de euros (20 milhões de reais) para que retirassem as acusações contra ele. Hoje, casado e com dois filhos, ele se apresenta em sua conta do Twitter como “pai e investidor”.

No Natal de 2017, o Pornhub abriu uma ‘pop up store’ (loja temporária) num elegante 
bairro de Milão onde vendiam-se roupas e brinquedos eróticos. (GETTY IMAGES)

Mas como Thylmann ficou rico com um serviço gratuito? A história é paralela à de qualquer conteúdo multimídia na Internet. Numa primeira etapa, ele oferecia um material que nem era seu, mas afirmava que só colocava sua tecnologia à disposição dos usuários e não podia controlar a disponibilidade legal do que era postado. Por outro lado, as produtoras de vídeos de sexo que possuíam os direitos desses vídeos percebiam, derrotadas, como era impossível lutar contra isso: buscar material para apagá-los era uma tarefa titânica. Mesmo quando conseguiam, em poucos dias o vídeo era publicado de novo.

Isso não durou muito: numa segunda etapa, assim como aconteceu antes com a música e o Spotify, e com o cinema e as plataformas de streaming, a indústria pornográfica soube que, se não podia derrotar o inimigo, devia se juntar a ele. Hoje o Pornhub funciona com a colaboração de centenas de produtoras. Elas o alimentam com materiais, dividem a receita de publicidade e redirecionam os usuários aos seus próprios sites. E, claro, numa terceira etapa cumpriu-se outra máxima da Internet: se o que você oferece gratuitamente é bom, o usuário estará disposto a pagar uma mensalidade para ver com mais facilidade e sem anúncios. Por 9,99 euros por mês (preço do Spotify), o conteúdo se multiplica, tem mais qualidade de imagem e até a possibilidade de realidade virtual.

“Todos visitamos o Pornhub”, disse Nicola Formichetti, ex-diretor de criação da Diesel. “Então, antes de começar a se masturbar, talvez você possa dedicar um tempinho para dar uma olhada em nossas calças e sapatos”

Que publicidade é feita no Pornhub? A maior parte é previsível: camisinhas, aumentadores de pênis, comprimidos para ereção, shows de webcam, videogames... ou mais pornô. Mas em janeiro de 2016 o panorama mudou e alguém da Diesel, a empresa italiana cujo diretor de criação na época era Nicola Formichetti, que vende perfumes de enorme sucesso e jeans a partir de 200 euros (900 reais), pensou que havia uma oportunidade numa plataforma que recebia 60 milhões de visitas por mês (hoje são muito mais). Foi a primeira marca mundialmente reconhecida que anunciou no Pornhub. E foi notícia em todo canto.

“Todos visitamos o Pornhub”, disse Formichetti. “Então, antes de começar a se masturbar, talvez você possa dedicar um tempinho para dar uma olhada em nossas calças e sapatos.” Três meses depois, o fundador da marca, Renzo Rosso, contou que tinha havido um aumento de 31%, embora sem especificar se era no tráfego do site da Diesel ou nas vendas. Mesmo que fosse só no tráfego, já é uma cifra espetacular.

Uma experiência parecida aconteceu com a plataforma de entrega de comida Eat24, que brincava em seus anúncios com certas mensagens ousadas. “O pornô não vai mais ser visto sozinho”, diziam. Ou seja: se você saía para buscar comida, teria menos tempo para ver sexo, então era melhor pedir através do serviço. No início deste ano, a marca de produtos de beleza masculina Dollar Shave Club (que pertence à gigante Unilever) também começou a anunciar no Pornhub. Matt Knapp, diretor de criação da marca, explicou a um jornal econômico australiano: “A campanha no Pornhub não foi cara e, surpreendentemente, as impressões e a exposição que conseguimos foram incríveis.”

Kanye West e Kim Kardashian têm, cada um à sua maneira, 
algo a ver com o mundo pornô: ele atuou nos prêmios Pornhub de 2018
e ela demonstrou que o vazamento de um vídeo sexual privado 
não tem por que ser o fim de uma carreira no mundo dos negócios;
 pode inclusive ser o início. (GETTY IMAGES)

O surpreendente é que se surpreendam. E que esse tipo de campanha não seja mais comum. Em 2018, o Pornhub teve em média 92 milhões de visitas diárias. Já não é um meandro obscuro e secreto. É o pornô transformado em algo tão popular e maciço quanto o Twitter (que este ano teve 100 milhões de visitas diárias, ou seja, só 8 milhões a mais que o Pornhub). O pornô, além disso, perdeu em grande medida sua sombra de lixo social: há atores pornôs que publicam novelas e dão longas entrevistas (Logan Pierce), e há atrizes pornôs que filmam cinema convencional, publicam ensaios e são reconhecidas ativistas feministas (Sasha Grey). E não nos esqueçamos de que a maior estrela multimídia da atualidade, Kim Kardashian, ficou famosa quando um vídeo pornográfico seu vazou e se tornou o mais visto da história. Poucos anos depois, ela seria eleita pela Time uma das mulheres mais influentes do mundo e sairia em várias capas da Vogue.

Justamente o marido de Kim Kardashian, Kanye West, ajudou em setembro de 2018 a confirmar esse caminho rumo à popularização do Pornhub: ele não somente esteve em sua primeira entrega de prêmios, mas também foi seu diretor criativo. West desenhou os prêmios (vibradores gigantes), estreou um clipe produzido por Spike Jonze e pediu ao artista Richard Kern que criasse o visual dos telões que rodeavam o evento, emitido em streaming através da própria plataforma de vídeo. Enquanto isso, eram entregues os prêmios: melhor boquete, melhor fetichista, melhor ator bem dotado... Este ano o segundo prêmio Pornhub será entregue em 11 de outubro. Até o momento, está confirmada a presença do porto-riquenho Bad Bunny, estrela da música atual e ícone millennial.

Como hoje ser popular passa inevitavelmente por ser comprometido, o Pornhub realizou iniciativas como plantar uma árvore por cada 100 visualizações de vídeos e rodou uma cena chamada “O pornô mais sujo já visto”, que acontece numa praia cheia de resíduos: por cada pessoa que assiste, o site faz uma doação à organização Ocean Polymers. Em menos de um mês, o vídeo já foi visto mais de cinco milhões de vezes.

O Pornhub também fez pelo mundo algo quase mais valioso do que presentear pornô grátis: a cada ano, traça aquele que é provavelmente o perfil psicológico mais íntimo, verídico e fascinante da atualidade. Todo janeiro, o site publica suas estatísticas: que tipo de pornô vemos, quando, como e onde. Livres de convencionalismos sociais, entramos no plano mais atávico e profundo de nós mesmos. Certamente não há nenhum outro relatório anual que diga mais sobre a alma humana. Em 2018, a estrela pornô feminina mais buscada foi Stormy Daniels (que disse ter tido um romance com Donald Trump em 2006), e a masculina foi Jordi El Niño Polla, nascido em Ciudad Real (Espanha) e hoje o homem mais famoso da indústria em todo o mundo.

O Pornhub fez pelo mundo algo quase mais valioso do que presentear pornô grátis: a cada ano, traça aquele que é provavelmente o perfil psicológico mais íntimo, verídico e fascinante da atualidade

Talvez o exemplo mais revelador sobre o uso do Pornhub tenha ocorrido em janeiro de 2018, quando o serviço de emergências do Havaí enviou por erro um alerta de míssil à população. Em meio ao pânico, que durou uma hora e meia, o tráfego do Pornhub caiu bruscamente no arquipélago. Logo que o problema foi resolvido e as autoridades anunciaram que a vida seguia tranquila, o site viveu um dos picos de acesso mais espetaculares da sua história. Todo mundo decidiu que era preciso comemorar que estava vivo. Ejaculando, aparentemente. Se você pensar do ponto de vista biológico, tem muito sentido. E do ponto de vista intelectual, tem muita poesia.

Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com

A lição da melhor professora do mundo


Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 20 de setembro de 2019

A lição da melhor professora do mundo

Entramos na escola londrina onde a docente que venceu prêmio de um milhão de dólares põe em prática sua fórmula baseada nas artes para educar alunos socialmente vulneráveis

Por Virginia López 

Peluche. Irmão. Peluche. E Andria Zafirakou na frente com um livro e um sonoro “quietos!” na boca. Com cinco anos, já se intuía que seu destino era ser professora. “Todas as minhas brincadeiras tinham a ver com ensinar, e eu dizia aos meus professores como eles tinham que dar a aula.” Zafirakou tem agora 40 anos e sua foto aparece no cartaz na grade da Alperton Community School, em Londres. Junto ao seu rosto, um rótulo: “Melhor professora do mundo 2018”.

Faz um ano que ela ganhou esse título, num prêmio concedido pela Fundação Varkey. Foi escolhida entre 30.000 candidaturas e, com o prêmio —um milhão de dólares distribuídos ao longo de 10 anos— ela criou o projeto Artist in Residence. “As crianças não escolhem uma carreira artística porque não conseguem ver as oportunidades que teriam. Esta iniciativa leva a arte aos colégios pela mão de fotógrafos, atores, músicos e demais profissionais que inspiram os alunos. Investi o prêmio neste projeto porque acredito no poder da arte.”

Zafirakou transformou suas brincadeiras infantis em realidade. Já não dá aulas no seu quarto; ensina arte e tecelagem em uma sala luminosa, na qual mal se vê as paredes pintadas de branco. Os trabalhos de seus alunos cobrem quase completamente as paredes da classe, vazia numa sexta-feira de junho. Com o cabelo preso em um coque alto, nem uma só mecha tampa seus traços mediterrâneos. Filha de imigrantes gregos, nasceu em Londres e cresceu no seio de uma grande família com as culturas grega e britânica entrelaçadas em suas raízes. “Tive uma infância genial. Era um pouco ovelha negra. Travessa, respondona e teimosa”. Sua vocação era ensinar, mas estudou Moda e Negócio Têxtil na Universidade de Brighton para entender a matéria antes de explicá-la aos seus alunos. Ao terminar, fez a formação necessária para se tornar professora.

Recém-graduada e com apenas seis meses de estágio em dois colégios, Zafirakou se apresentou na Alperton Community para pedir trabalho. E se deparou com uma escola aos pedaços. Com janelas quebradas e baldes para conter a água que se infiltrava nas salas de aula, porque nevava do lado de fora. Os garotos que entravam na classe não passavam de 14 anos, mas pareceram gigantes malcriados: “Foi a pior aula que dei na minha vida. Não dava arte, ensinei-os a se comportarem”.

Através da arte, ela se tornou um exemplo inspirador para seus alunos.
Foto: Manuel Vázquez 

Saiu do teste convencida de que não queria o trabalho. Levava uma experiência gratificante dos seus seis meses de estágio, e esse centro só parecia prometer problemas. A escola fica em Brent, um bairro imigrante e pobre na zona noroeste de Londres, e membros de gangues locais ficavam na porta esperando os alunos saírem para recrutá-los. Os professores dirigiam carros velhos porque, se aparecessem com um novo, seria vandalizado. Mas o diretor lhe ofereceu o trabalho, e Zafirakou pensou que talvez não fosse má ideia aceitar por um tempo. Ficava a 20 minutos de sua casa, bem poderia ficar por lá durante um ano, no máximo. Ganhar experiência e cair fora. Aceitou. Está lá há 14 anos e, além de professora, é subdiretora.

As gangues continuam espreitando os alunos na saída da escola, mas o colégio pouco se parece com o que a professora conheceu mais de uma década atrás. Não se veem janelas quebradas —na verdade, as instalações atuais são invejáveis e com uma segurança pouco habitual para uma escola secundária. Mas há um tecido social que ainda condiciona os alunos. “Os pais desses garotos não têm muito dinheiro. Costumam viver várias famílias numa mesma casa. Dispõem de um cômodo para cada uma e compartilham cozinha, sala e banheiro”. Essa comunidade começou a lhe impressionar durante seu segundo ano de trabalho. Ela notou que uma das suas “meninas” ia para a aula pela manhã, mas desaparecia na hora do almoço. Descobriu que escapava para casa quando era a vez da sua família usar a cozinha, pois assim podia preparar a comida de todos. Também viu alunos fazerem os deveres no banheiro, por não encontrarem outro lugar tranquilo em seus lares.


Zafirakou sabe que muitos de seus alunos vestem o mesmo uniforme ano após ano porque seus pais não têm dinheiro para renová-lo, e que alguns mal têm para comer. Entre as iniciativas que ajudou a promover destacam-se a de oferecer um café da manhã gratuito diariamente e reservar espaços para quem não puder estudar em casa. Além disso, 85% deles não têm o inglês como língua materna, e Zafirakou usa sua disciplina para reduzir as inseguranças que isso possa gerar: “Sentem muita pressão para aprender a falar e escrever, acham que nunca vão estar à altura. Mas quando chega a matéria de arte, é seu momento de brilhar”.

Os professores desta escola não se limitam a dar aula. Sabem que muitos de seus alunos vivem em contextos de risco e que a chave para poder ajudá-los passa por estabelecer com eles uma relação de confiança. “Muitas de minhas meninas estiveram envolvidas em problemas com gangues. Nós as acompanhamos até o ônibus para que cheguem a salvo à sua casa. E a primeira coisa que fazemos ao voltar de férias é ver se as crianças que nos preocupam vieram. Se estiverem aqui, para nós é um milagre.”

Através da arte, a professor se tornou um exemplo para seus alunos.

Texto e imagens reproduzidos do site: brasil.elpais.com

domingo, 15 de setembro de 2019

8 frases de Toni Morrison que vão te provar que nunca é tarde para começar


Publicado originalmente no site HUFF POST BRASIL, em 08 de agosto de 2019

8 frases de Toni Morrison que vão te provar que nunca é tarde para começar

Ao contrário do que muita gente pensa, a autora só começou a publicar os seus trabalhos aos 39 anos. E ela tem muito a dizer sobre o que é um trabalho ou uma carreira.

By Monica Torres

Toni Morrison foi a primeira mulher negra a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura e é autora de 11 romances. Ela morreu aos 88 anos na última segunda-feira (5), deixando para trás um legado de palavras que reformularam o que a gente entende como a cultura americana. Sua escrita foi uma força singular, mas um detalhe sobre a carreira de Morrison pode te surpreender: ela só começou a trabalhar a sua literatura quando já era mais velha.

Morrison não era alguém que se encaixaria em listas de “30 sucessos abaixo dos 30” que vemos hoje por aí, ou alguém que tivesse o luxo de ter um tempo infinito para se dedicar ao seu trabalho.

Morrison escrevia nos tempos livres, antes do nascer do sol e depois de finalizar as suas responsabilidades no cuidado das crianças.

“Escrever antes do amanhecer começou como uma necessidade - eu tinha filhos pequenos quando comecei a escrever e precisava usar o tempo antes deles dizerem ‘mamãe’ - e isso era sempre às cinco da manhã”, disse ela ao The Paris Review, em 1993. Ela não foi publicada até os 39 anos de idade.

O que isso me ensinou é que eu poderia começar a qualquer momento, que eu poderia crescer mesmo estando presa em algum outro lugar. No trabalho, é comum que tempo de outras pessoas se torne aquilo que passa a ditar o seu. Mas o que a carreira de Morrison me disse é que você poder fazer o seu próprio tempo, não importa em que fase da vida você está.

Aqui estão outras palavras de sabedoria de carreira que ela deu em discursos e entrevistas ao longo dos anos:

Sobre o que seu pai lhe ensinou em relação ao valor do trabalho
“Um dia, sozinho na cozinha com meu pai, deixei sair algumas reclamações sobre o meu trabalho. Dei-lhe detalhes, exemplos do que me incomodava, mas, embora ele escutasse atentamente, não vi simpatia em seus olhos.Talvez ele tenha entendido que o que eu queria era uma solução para o trabalho, não uma fuga dele. De qualquer forma, ele largou a xícara de café e disse: “Escute. Você não mora lá. Você vive aqui. Com o seu povo. Vá trabalhar. Pegue seu dinheiro. E venha para casa.

Isso foi o que ele disse. Isso foi o que eu ouvi:

1. Seja qual for o trabalho, faça bem - não para o chefe, mas para si mesmo.

2. Você faz o trabalho; não é ele que te faz.

3. Sua vida real é conosco, sua família.

4. Você não é o trabalho que faz; você é a pessoa que você é.

Desde então, tenho trabalhado para todos os tipos de pessoas, gênios e idiotas, perspicazes e obtusos, medrosos e estreitos. Eu tive muitos tipos de trabalho, mas desde aquela conversa com meu pai, eu nunca considerei o nível de trabalho como a medida de mim mesma, e nunca coloquei a segurança de um trabalho acima do valor que tem o meu lar.”- The New Yorker, 2017

No ritual do café da manhã e como os rituais nos ajudam a fazer o trabalho
“Eu sempre me levanto e faço uma xícara de café enquanto ainda está escuro - deve estar escuro - e então eu bebo o café e vejo a luz vir. Todos os escritores planejam maneiras de se aproximar daquele lugar onde eles esperam fazer o contato, onde eles se tornam o canal, ou onde eles se envolvem neste processo misterioso que é a escrita. Para mim, a luz é o sinal na transição. Não é estar na luz, é estar lá antes dela chegar. Isso me dá possibilidades, em certo sentido.”

“Eu digo aos meus alunos que uma das coisas mais importantes que eles precisam saber é quando eles são os melhores, criativamente. Eles precisam se perguntar: como é a sala ideal? Há música? Há silêncio? Há caos do lado de fora ou há serenidade lá fora? O que eu preciso para liberar minha imaginação?” - The Paris Review, 1993

Na mentoria

Eu digo aos meus alunos: 'Quando você conseguir esses trabalhos para os quais você foi tão brilhantemente treinado, lembre-se de que seu trabalho real é que, se você é livre, precisa libertar outra pessoa. Se você tem algum poder, então seu trabalho é capacitar outra pessoa. Este não é apenas um jogo de doces com sacolas de compras.”

Por que a ideia de um trabalho “melhor” não é um rótulo útil

“Eu não faço distinção entre o artista e o resto do mundo, o chamado mundo real do trabalho cotidiano. Eu não subscrevo a teoria do artista como uma espécie de estética separada sentada na torre de marfim sofrendo e falando de beleza. É trabalho, é trabalho duro e há muito disso, e há muito disso que precisa ser feito, mas é exatamente isso. Não é estar sentado debaixo de salgueiros e esperando a inspiração e etc...”

“Tem algo em relação com o trabalho. Não tenho certeza de que é o melhor trabalho, na verdade, nem de que é melhor do que qualquer outro tipo de trabalho. Eu não estou convencida de que seja. Acho que sempre foi algo tratado e recebido com mais elegância, mas não tenho certeza de que seja melhor. Não tenho certeza de que eu não seria tão feliz se fosse capaz de fazer uma cadeira perfeita que segurasse um corpo humano da maneira correta, coisa que eu não sou. E lido com o meu trabalho da mesma forma que espero que os fabricantes de cadeiras de rodas lidem com o deles.” - Coleção de Colunas Públicas da Oregon State University de Portland, 1975

Sobre como ela diz aos recém-formados que crescer não é fácil, mas é glorioso
“Eu sei que a felicidade tem sido o verdadeiro alvo dos seus trabalhos até aqui, das suas escolhas de amigos, da sua profissão. Você merece ser feliz e eu quero que você seja. Todo mundo deveria.

Mas se isso é tudo o que você tem em mente, então você tem minha simpatia, e se estes são realmente os melhores anos de sua vida, você tem minhas condolências, porque não há nada, acredite em mim, mais satisfatório, mais gratificante do que a verdadeira vida adulta. A idade adulta que é o período da vida antes de você se tornar você. O processo de se tornar alguém não é algo inevitável. Sua conquista é uma beleza difícil, uma glória intensamente conquistada com dificuldade, à qual as forças comerciais e a insipidez cultural não deveriam ser autorizadas a privá-lo.” - discurso de formatura do Colégio Wellesley, 2004

Sobre a responsabilidade dos artistas em continuar trabalhando

Eu sei que o mundo está machucado e sangrando, e embora seja importante não ignorar sua dor, também é crítico se recusar a sucumbir à sua malevolência. Como o fracasso, o caos contém informações que podem levar ao conhecimento - e até à sabedoria. Assim como arte.”
- The Nation, 2015

Sobre se libertar dos rótulos

“Nenhuma geração, muito menos a minha, tem total controle sobre a imaginação e os objetivos das gerações subseqüentes; não se você se recusar a deixar as coisas como estão. Você não precisa aceitar  os rótulos da mídia ou até mesmo rótulos acadêmicos: Geração A, B, C, X, Y, maioria, minoria, estado vermelho, estado azul; esta casta social ou aquela. Toda verdadeira heroína se liberta de sua classe - superior, intermediária e inferior - para servir a um mundo mais amplo.”- Rutgers, discurso de formatura, 2011

Sobre ser pioneira

“Se você encontrar um livro que realmente queira ler, mas ainda não foi escrito, então você deve escrevê-lo.” - Ohio Arts Council Speech, 1981

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Texto e imagem reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

sábado, 14 de setembro de 2019

Valentina Sampaio, 1ª modelo trans da Victoria's Secret...

Valentina Sampaio durante desfile da L'Oreal, na Semana de Moda de Paris, em 2018
PASCAL LE SEGRETAIN VIA GETTY IMAGES

Valentina Sampaio, 1ª modelo trans da Victoria's Secret: 'Este é apenas o começo'

Modelo cearence de 21 anos foi pioneira ao estrelar uma capa da Vogue Paris, a representar a L’Oréal e, agora, a Victoria's Secret.

By Andréa Martinelli

“Imagine um mundo em que não seja novidade uma modelo transgênero ser garota propaganda ou desfilar por alguma marca. Isso não seria incrível?”, questiona a modelo brasileira Valentina Sampaio, de 21 anos, em entrevista por e-mail ao HuffPost Brasil. “Significaria que é algo normal e que está acontecendo o tempo todo”, continua. Ela, que é natural de Aquiráz, em Fortaleza (CE), é a primeira mulher trans a integrar o time de modelos da Victoria’s Secret ― ela está no novo catálogo da linha “Pink” da grife.

Quando foi anunciada pela marca no início de agosto, ela comemorou e disse ser “um sonho realizado e que representa muito” em suas redes sociais. Afinal, ícones da moda como Gisele Bündchen e Tyra Banks já estiveram neste mesmo lugar. Em seguida, celebridades, fãs e outras modelos comemoraram junto com ela a notícia. “Uau, finalmente!”, escreveu a atriz trans Laverne Cox; “só as brasileiras para fazer essa marca renascer”, escreveu de seus seguidores.

“Eu sinto muito orgulho por estas realizações, mas este é apenas o começo”, pontua, segura de que sua carreira ainda alcançará outras metas. “Tenho muito orgulho de representar uma mudança positiva na indústria da moda. É importante usar minha voz e visibilidade para tentar mudar o status quo não apenas na indústria da moda, mas também na sociedade.”

Valentina, em catálogo para a linha "Pink", da Victoria's Secret 
linha traz peças para a prática de esportes e também de conforto. 
DIVULGAÇÃO/VICTORIA'S SECRET

Sampaio estreou nas passarelas em 2014, no Dragão Fashion Brasil, evento de moda tradicional do Ceará ― e desde então sua carreira deslanchou. A modelo chamou da imprensa internacional atenção quando se tornou a primeira transexual a ser garota-propaganda da marca L’Oréal Paris, em 2016. Neste mesmo ano, ela estreou na São Paulo Fashion Week (SPFW). Em 2017, foi novamente pioneira ao ser a primeira modelo trans na capa da Vogue Paris.

Na época em que foi capa da Vogue francesa, Valentina disse à revista que o convite foi uma “felicidade gigantesca” e que a ascensão de sua carreira aconteceu de modo “muito rápido” e surpreendente. Quando foi convocada para ser garota-propaganda da L’Oréal, ela tinha apenas 18 anos. Hoje, três anos depois, a modelo reconhece que suas conquistas não são individuais e que sua presença reflete mudanças que vêm acontecendo de forma paulatina.

“Eu obviamente estou muito feliz com as mudanças na indústria. E não apenas para a comunidade trans. É inspirador ver muitas minorias representadas, seja pelo gênero, biotipo ou etnia. Todos precisam ser representados na moda e na sociedade. Me sinto orgulhosa e inspirada por fazer parte dessa evolução e planejo usar minha voz para continuar a ultrapassar limites.”

Valentina Sampaio desfila para a coleção de primavera/verão 
da espanhola The 2nd Skin Co's no Mercedes Benz 
Fashion Week em Madri, em julho de 2019. 
GABRIEL BOUYS VIA GETTY IMAGES 

Limites estes que, diante de um cenário social, se tornam cada vez maiores. O Brasil é o País que mais mata pessoas trans no mundo, segundo a ONG Transgender Europe. De acordo com levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em conjunto com o Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), 163 pessoas trans foram assassinadas no País em 2018.

Dados como estes e crescer em uma comunidade ribeirinha na região metropolitana de Fortaleza (Ceará), não fizeram o sonho da modelo ser menor. Trabalhar com a Victoria’s Secret era um objetivo de Valentina. E não foi fácil chegar até lá. Ela conta que, para fazer parte do catálogo da marca, passou por uma série de testes ― parte deles online. Primeiro, um casting virtual. Depois, uma entrevista formal por Skype para, enfim, chegar até o resultado positivo.

As imagens para o catálogo da linha “Pink” que Valentina participa foram feitas em junho deste ano, em Nova York, nos EUA. Ela foi fotografada por Sebastian Kim. Até o momento, a marca não divulgou o catálogo completo da linha.

Teddy Quinlivan foi o nome escolhido para integrar o time 
de modelos da Chanel. Na foto acima, ela desfila durante 
a Semana de Moda de Milão, em 2018. 
ESTROP VIA GETTY IMAGES

Para a modelo, mesmo diante do cenário de preconceito e invisibilidade a que a comunidade trans ainda é submetida, ganhar reconhecimento e firmar uma carreira desde tão nova em um ambiente que só há poucos anos de propôs quebrar com uma lógica que apenas reproduzia estereótipos ― é algo que gera resultados positivos para todos. Em especial, para as mulheres trans.

“Ainda há um longo caminho a percorrer”, aponta Valentina. “Mas acredito que estamos dando alguns passos rumo à representatividade e inclusão, e isto deve continuar acontecendo, em todas as esferas”, conclui.

Tanto que, depois da Victoria’s Secret anunciar que Valentina era uma das novas caras da marca, foi a vez da tradicional Chanel assinar seu primeiro contrato com uma modelo trans. Teddy Quinlivan foi o nome escolhido.

Um anúncio significativo em meio a polêmicas

O anúncio de Valentina como primeira mulher trans a estampar uma campanha da marca vem em meio à polêmicas. Tanto a grife quanto seu evento anual, o Victoria’s Secret Show, enfrentam críticas pela falta de diversidade e por não acompanhar tendências contemporâneas da indústria da moda.

Ano passado, ao negar que contrataria modelos trans e plus size para o desfile, Ed Razek, chefe de marketing da empresa, causou revolta e levou a modelo trans norte-americana Nikita Dragun, a fazer um protesto silencioso. Ela fez seu próprio ensaio como “angel” e divulgou em suas redes sociais.


Em meio a polêmicas, o desfile talvez não aconteça neste ano. Foi o que a modelo Shanina Shaik, que já desfilou cinco vezes para marca, disse recentemente ao jornal australiano The Daily Telegraph.

A grife não confirmou a informação, mas já havia divulgado que, neste ano, o desfile das “angels” não será televisionado pela primeira vez em 20 anos. Modelos brasileiras como Gisele Bündchen, Adriana Lima e Alessandra Ambrósio já fizeram parte do time de estrelas da marca.

Texto e imagens reproduzidos do site: huffpostbrasil.com

Quem pode dizer o que é erotismo e pornografia?

Imagem do livro em quadrinhos "Vingadores, a Cruzada das Crianças" 
que está sendo comercializado na Bienal Internacional do Livro do Rio
e que sofreu tentativa de censura por parte do prefeito Marcello Crivella.
Imagem: divulgação

Publicado originalmente no site [biblioo.cartacapital], em 07 de setembro de 2019

Quem pode dizer o que é erotismo e pornografia? 

O desejo na pauta do dia

Por Cláudio Rodrigues 

É bizarro. Mas não é novidade. A história está aí para trazer a nossas vistas as recorrentes tentativas de interdição ou policiamento do desejo. Esta semana o Brasil se escandalizou com o vídeo do pastor neopentescontal e prefeito do Rio de Janeiro no qual informava que fiscais da prefeitura visitariam a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro para recolher todos os livros que, por serem considerados pornográficos, deveriam estar lacrados com saco preto com advertência do conteúdo proibido para menores, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A advertência se encerra com “é preciso proteger nossas crianças”.

Sabendo que coordeno um grupo de estudos na UFC que desenvolve pesquisas sobre erotismo e pornografia na história ocidental, com destaque para a literatura brasileira, tenho recebido perguntas de colegas, alunos e desconhecidos sobre a diferença entre erotismo e pornografia. Querem saber, ainda, o que pode ser considerado pornografia. Especificamente em relação à HQ da Marvel – Os vingadores: a cruzada das crianças – motivo da tentativa de censura pelo prefeito-pastor, perguntam por que o beijo entre dois homens é visto como obsceno e/ou pornográfico.

A questão é complexa, porque pensar sobre o sexo sempre foi uma forma de tentar controlar o que não se deixa prender nos domínios das leis, das crenças e dos governos. No entanto, essas três instâncias sociais, mais a ciência e a medicina, sempre buscaram apreender esse território perigoso que chamamos desejo, libido, prazer, pulsão e suas inúmeras formas de manifestação entre os homens, desde o afeto demonstrado num abraço ou num beijo até o ato sexual e seu alfabeto do prazer entre dois corpos, homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher, ou mesmo solitariamente, com a masturbação.

O problema é que apreender não significa necessariamente compreender. A história tem mostrado que o olhar ao que nos é desconhecido e nos move na direção do desejo tem sido uma forma de conhecer para controlar, não para libertar. Isso é o que, por exemplo, diz a obra de Foucault sobre a sexualidade. Ao contrário do senso comum, que repetiu por muito tempo a cantilena de que, desde a Idade Média, o corpo e o sexo foram instados ao silêncio, sofrendo uma feroz interdição, Foucault afirma que nunca se incitou tanto os homens a falarem sobre o sexo. Era uma verdadeira obsessão, seja por meio da confissão (um sacramento da igreja), seja através da medicina (as tentativas de tratar a histeria no século XIX), seja por meio do Estado e de seus mecanismos jurídicos (a elaboração de normas para definir o que é proibido ou não em matéria da sexualidade).

O homo sapiens, de que nos orgulhamos fazer parte (não me refiro ao homo argilorum, produto de um mito, reforçado por aqueles que se negam a pensar na hermenêutica das mitologias), é também homo sexualis que, contrariando a ideia de que biologicamente só podemos, como qualquer mamífero não humano, praticar o sexo em tempos de cio, com fins à procriação, dissemos não a essa natureza e inventamos a sexualidade, elaboramos uma cartilha do prazer, fizemos do sexo uma linguagem. Os humanos praticam o sexo no sentido mais amplo possível. Portanto, não me refiro à penetração de um pênis na vagina, essa ação tão binária, tão heteronormativa, tão culturamente compulsória.

Se não compreendemos que somos sexo da cabeça aos pés, que, do mais insignificante fio de cabelo à unha encravada do dedão do pé, tudo em nós respira sexualidade, (embora, como já disse Freud, não se saiba onde nasce e se esconde o desejo), se isso for uma constante negação em nós e naquelas instituições que nos congregam socialmente, estaremos fadados ao fracasso em qualquer atividade que nós propusermos a executar individual ou coletivamente falando.

O erótico e o pornográfico, duas instâncias de representações culturais do prazer, estão presentes em espaços onde jamais poderíamos supor, apenas tendo como recorte o Ocidente, O que nos dizem os corpos nus nas pinturas e esculturas em vários momentos da história da arte (com destaque para a representação do corpo feminino)? O que dizer das cenas famosas de amantes cantados e narrados na literatura, desde Ilíada, e suas representações nas artes visuais? Que imaginar quando fachadas de igrejas medievais europeias expõem vaginas e pênis disfarçados de calhas de recolhimento da água da chuva? Que pensar quando livros da Bíblia apresentam poemas e prosa de rara beleza sobre o desejo sexual e suas manifestações nos corpos dos amantes, inclusive homoafetos? Podemos dizer que toda essa cultura fartamente documentada é pura perversão? Não estaríamos falando de uma pedagogia do desejo, que nutre tudo o que temos enquanto cultura e molda o que nossa humanidade?

Mas ainda não disse o que compete ao erótico e o que é da alçada do pornográfico. Quem estuda o erotismo costuma ler e ouvir duas vertentes em relação a isso. A perspectiva tradicional faz questão de enfatizar a dualidade hierarquizante entre o erotismo (algo sempre elevado, que não apenas sugere, que não se expõe, implícito) e o pornográfico (algo rebaixado, da ordem do obsceno, que mostra tudo, explícito).

Imagem do livro em quadrinhos “Vingadores, a Cruzada das Crianças” 

Assim, por ser algo elevado, inclusive tendo em seu conceito o radical da mitologia grega, o deus Eros, o erotismo pode ser adequado a figurar nas páginas dos livros, nas pedras esculpidas e expostas em casas ou museus, nas telas da pintura, na fotografia e no cinema. Já o pornográfico é relegado aos lugares fétidos do proibido, tanto que na sua etimologia leva o nome “porn”, que significa “puta”, como se as putas não tivessem seu valor social, afetivo e econômico nas culturas. Mas qual o lugar social delas? E no que uma mulher puta difere de uma mulher casadoura? Inúmeras perguntas, que não cabem aqui agora.

Acontece que o termo pornografia e suas variantes é bem recente, tem aí por volta de 500 anos. A historiadora Lynn Hunt, em A invenção da pornografia (1999), situa a elaboração desse conceito entre 1500 1800, ou seja, trata-se de um conceito moderno, nascendo justamente “em resposta à ameaça de democratização da cultura” (1999, p.12), ou seja, quando se popularizou o livro, com o advento da reprodução tipográfica, foi preciso que se dissesse o que era permitido e o que era proibido ler: “A pornografia começou a aparecer como gênero distinto de representação quando a cultura impressa possibilitou às massas a obtenção de escritos e ilustrações” (HUNT, 1999, p.13). E logo se criam os infernos na biblioteca, espaços para onde os livros obscenos eram destinados, onde não saiam para a leitura do público comum (dentre esses livros, encontravam-se inúmeras obras escritas por ou sob o tema da prostituição); surgiram também os museus secretos, espaços onde eram trancafiados os objetos considerados pornográficos.

Ou seja, a pornografia como conceito e palavra nasce para separa o joio do trigo, na acepção bíblica do que pode e o que não pode ser apresentado à sociedade. E, é claro, que “a história de sua regulamentação demonstra que os esforços empreendidos para controlar a pornografia contribuíram, em parte, para a sua definição” (HUNT, 1999, p. 12). Então, não se pode falar de erotismo e pornografia, sobretudo dessa última, sem pensar que não são palavras, mas conceitos historicamente maleáveis e inseridos nas políticas e moralidades do seu tempo. Estamos falando de leituras sobre a representação do desejo. Por exemplo, quando a sociedade atual fala do pornográfico, quase sempre está pensando na indústria e no comércio em torno do sexo que se proliferou com os cinemas, as TVs, as revistas com ensaios fotográficos de corpos nus e as fotonovelas com narrativas cuja finalidade é excitar o leitor ou espectador. Quem consome esses produtos está mesmo ciente da disputa dos termos erótico e pornográfico no campo político? Parece que não.

Voltando a Foucault, nunca como nos séculos XVIII e XIX, se falou e se estimulou a falar sobre o sexo na tentativa de se mapear os discursos sobre o desejo a fim de intervir, controlar e dirigir. É o sexo como uma instância de poder, portanto, um domínio a ser perseguido: “Mas o essencial é a multiplicação dos discurso sobre o sexo no próprio campo do exercício do poder: incitação institucional a falar do sexo e a falar dele cada vez mais; obstinação das instâncias do poder a ouvir falar e a fazê-lo falar ele próprio sob a forma da articulação explícita e do detalhe infinitamente acumulado” (FOUCAULT, 2015, p. 20).

A questão que se coloca é: a quem interessa dizer o que é obsceno e pornográfico? Em nome de quem e do que se interpreta um beijo gay, por exemplo, como a representação de um ato obsceno? As legislações e os governos, sobretudo aqueles autoritários e fundamentalistas, sabem tirar proveito dos discursos sobre o desejo em benefício próprio. A pesquisadora e ativista feminista lésbica estadunidense, Gayle Rubin, em texto clássico sobre a política da sexualidade, escrito na década de 1980, é categórica ao afirmar que “O sexo é sempre político. Mas há também períodos históricos em que as discussões sobre a sexualidade são mais claramente controvertidas e mais abertamente politizadas. Nesses períodos, o domínio da vida erótica é com efeito renegociado” (RUBIN, 2017, p. 64).

Nessa direção vai o escritor estadunidense Gore Vidal, num famoso artigo intitulado “Sexo é política”, publicado inicialmente na Playboy americana, em 1979 e em de Fato e Ficção (1987), no qual fala de “botões quentes” usados por certos políticos para angariar o apoio das massas em determinados momentos; entre esses “botões”, estaria a repetição do “Salvem nossas crianças”, que o autor traduz para “abaixo as bichas”.

Parece que estamos vivendo em tempos como esses descritos por Rubin, e não resta outra saída a não ser elaborar estratégias de renegociação do que é da ordem do erótico, visto aqui como algo mais amplo, e não necessariamente o que é menos ou mais explícito. Em tempo autoritários, as legislações são usadas para legitimar ações interpretativas esdrúxulas como a do prefeito-pastor, que se utiliza do ECA para censurar uma obra, ao invés de se apropriar da mesma lei de proteção do menor e do adolescente para ajudar na educação no núcleo familiar, onde estão abusadores em potencial e onde se sabe que ocorrem estupros e feminicídios.

Gayle Rubin, no mesmo artigo afirma que, na sociedade americana da década de 1960, “comunidades eróticas cujas atividades não se enquadravam no sonho americano do pós-guerra sofreram forte perseguição. Os homossexuais foram, junto com os comunistas, objeto de uma caça às bruxas em todo o país” (RUBIN, 2015, p. 68). E uma das táticas que governos assim se utilizam para incitar uma “histeria erótica”, segundo Rubin, é a necessidade de se proteger e defender enfaticamente as crianças.

Ou seja, através do pânico se obtém adesão ao projeto de extermínio do diferente ou do que causa incômodo. Não foi exatamente isso o que ocorreu por essa época aqui no Brasil, quando os militares tomaram o poder, apoiados por civis, pela imprensa e por parte da igreja, justamente aquele segmento que dizia defender a moral e os bons costumes?!

A procura pelo tema do erotismo e da pornografia só tem aumentado. Recentemente, junto com meu grupo de Estudos da língua de Eros, do Departamento de Literatura e do programa de Pós-Graduação em Literatura Comparada, ambos na UFC, oferecemos um curso sobre introdução ao erotismo na cultura e na literatura. Eram apenas 20 vagas, mas tivemos quase 60 inscrições. Sujeitos das mais variadas ambiências sociais e profissionais queriam ouvir e falar sobre erotismo e sexualidade, entre eles, alunos de Letras, professores, psicólogos, atores, jornalistas, donos de sex shopping, religiosos…

Montamos uma turma que representa justamente as múltiplas faces sociais do desejo, e os encontros prometem, sobretudo, desconstruir as velhas dicotomias e, com elas, as ideias preconcebidas sobre o que é ou não da ordem do erótico. Fora disso, uma busca rápida no Google sobre erotismo e pornografia, ou sobre interdição e transgressão, traz uma enxurrada de links, dos mais variados matizes, que vão desde vídeos e cena do mercado pornô, que agora migrou consideravelmente para a comunidade www, até as notícias da imprensa oficial e popular que cobrem as tentativas de cerceamento de exposição de trabalhos artísticos sobre as corporeidades, sobretudo as dissidentes (gays, lésbicas, travestis, transexuais, mulheres, negras…).

Ou seja, não se trata apenas de tentar interditar o desejo e suas representações, mas é, sobretudo, a necessidade de impor uma determinada visão sobre o que deve ser aceito em matéria de desejo. E é claro que o que deve ser aceito por esses censores da moralidade é a ideia binária da sexualidade, heteronormativa, especificamente aquele modelo centrado numa hierarquia, que reconhece o lugar do homem sempre acima da mulher, inclusive na cama.

As masculinidades tóxicas se disfarçam às vezes. Podem vir disfarçadas de pastores, de padres, de professores, de cientistas, de advogados… É preciso estar atentos aos que usam as batas da profissão para disseminar seus preconceitos, suas homofobias, lesbofobias, transfobias, Lgbtqfobia, misoginia, racismo, xenofobia, enfim, tudo aquilo que torna a humanidade um pouco menos humana. Quem pode contra o desejo? Nem eu, nem você, nem a igreja, nem tampouco o Estado. Mas é preciso estar muito atento: onde há tentativa de cerceamento do desejo alheio, há medo e não aceitação da diversidade. Daí que é melhor dizer o que é erótico e ter domínio sobre ele para, assim, continuar perpetrando o discurso vertical de dominação masculina.

Resta-nos entender e viver o erótico, valorizando a autodescoberta, mas sobretudo, é preciso retirar o erótico das instâncias do poder cerceador. Por isso, só pode ser louvável ações individuais ou coletivas que rapidamente tentam deslegitimar discursos preconceituosos como o do prefeito-pastor do Rio de Janeiro. Diante da ameça de censura à bienal, as editoras começaram a publicar nas suas redes fotos da bandeira LGBT junto com textos de repúdio ao governo municipal do Rio. E, o mais notável, exemplo de contradiscurso, pelo alcance que tem e pela grandeza da ação, o youtuber Felipe Neto se utilizar da influência nas redes para comprar todos os livros de temática LGBT da bienal (cerca de 15 mil volumes) e oferecer de graça numa ação que é uma perfeita performance política.

Em síntese, o beijo na HQ dos Vingadores é problema não por ser obsceno, mas por ser a legítima representação de afeto entre dois homens adultos. A caça às bruxas, nesse caso, se resume na tentativa de interdição da homoafetividade pura e simples. Diante disso, impõe convocar cristãos – católicos e evangélicos – que não compactuam com o patriarcalismo falocêntrico disfarçado de pastores e presidentes orarem a seguinte litania: “De Crivellas e Bolsonaros, libera nos Domine!”.

REFERÊNCIAS

FOUCAULT, Michel. A história da sexualidade I: a vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra, 2015.

HUNT, Lynn. A invenção da pornografia: obscenidade e invenção da modernidade. São Paulo: Hedra, 1999.

RUBIN, Gayle. Políticas do sexo. São Paulo: Ubu Editora, 2017.

VIDAL, Gore. “Sexo é política”. In: De fato e ficção: ensaios contra a corrente. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 227-250.

Texto e imagens reproduzidos do site: biblioo.cartacapital.com.br